ACIDENTES POR MÁS CONDIÇÕES ERGONÔMICAS – Parte 2: Ferramentas Inadequadas

Um novo olhar na Prevenção de Acidentes:

ACIDENTES POR MÁS CONDIÇÕES ERGONÔMICAS – Parte 2: Ferramentas Inadequadas

Qual é a primeira e principal recomendação para um método correto de trabalho? É usar a ferramenta adequada.

Nada menos que 21% dos acidentes de nossa amostra estatística tiveram como origem ferramentas inadequadas. Como é possível exigir que o trabalhador execute seu trabalho de forma segura se sua própria ferramenta de trabalho já é uma causa de insegurança? Os fatores mais críticos encontrados em nossos estudos foram o uso de marretas, alavancas e ferramentas improvisadas.

Marretas

As marretas costumam ser usadas para as mais diversas finalidades: para sacar pinos, rolamentos e calços, para completar determinados ajustes, para ajudar na abertura de válvulas travadas, para abrir furos no piso impactando-as sobre uma estrutura metálica denominada piquete, e se constituem em peças comuns nas áreas de manutenção e de caldeiraria das empresas em geral. Algumas são tão pesadas que chegam a ter 11,6 kg. O uso das marretas costuma necessitar a atuação de dois trabalhadores: um que exerce a força propulsora e outro que segura o componente que será pressionado pela força da marreta (punção). Para não situar a mão próximo do ponto em que a marreta irá bater, os trabalhadores desenvolveram um dispositivo denominado “pirulito” ou “picolé”.

Os acidentes daí decorrentes são devidos a: (a) marreta atinge o corpo do trabalhador auxiliar; (b) marreta solta fragmentos metálicos (chamados às vezes de “besouros”) da superfície onde ela bate e atingem o corpo de um dos trabalhadores ou de um terceiro colaborador; (c) se a marreta não estiver bem cunhada no cabo, ela pode escapar e atingir um dos trabalhadores ao redor, ou mesmo o que a estiver utilizando, sendo imprevisível a parte do corpo que ela pode atingir.

Além disso, existe também a possibilidade de lesão muscular devido à intensidade do esforço, à movimentação e até mesmo ao simples desequilíbrio de uma peça muito pesada sobre partes do corpo do trabalhador.

Alavancas

Alavancas são normalmente usadas por mecânicos quando encontram alguma porca muito apertada e necessitam retirá-la, utilizando então alongadores do cabo. Também são utilizadas para multiplicar a força humana em situações em que a exigência de força é muito intensa, como em ajustes e movimentações e peças pesadas. Usualmente são feitas com tubos e outras sucatas encontradas na área.

As alavancas constituem a segunda maior causa de acidentes relacionados a ferramentas inadequadas. Aqui, adota-se um princípio aparentemente correto: aumentando o braço de potência (distância do ponto de aplicação da força até o fulcro do movimento), há necessidade de menor força e a eficácia da ação humana também aumenta. Mas o perigo que acompanha o uso das alavancas é o esforço aos arrancos e a possibilidade de desequilíbrio do corpo.

Ferramentas Inadequadas

O baixo conhecimento técnico a respeito de ferramentas adequadas para os diversos tipos de trabalho é uma regra entre supervisores e chefes de turno na atualidade. Trata-se de um conhecimento que vem se perdendo no mundo do trabalho, à medida que mais e mais se investe para que os coordenadores e líderes de equipe conheçam informática e ferramentas ligadas à microeletrônica. Outro motivo certamente importante é o enxugamento dos níveis hierárquicos com o desaparecimento da figura do antigo contramestre, que conhecia muito bem os diversos tipos de ferramentas. Assim, nesta pesquisa, impressionou o alto número de acidentes devido a esse fator.

 

Conclusão

Deve ser montada força-tarefa para identificar na empresa as situações colocadas neste capítulo e, seguindo um bom padrão de gestão da mudança, eliminar gradativamente situações descritas, garantindo que uma condição básica, fundamental, de qualquer trabalho, seja cumprida: que o trabalhador tenha ferramentas corretas.

Para isso, pode ser necessário buscar consultoria especializada, que raramente é encontrada nas universidades. Terão boas condições de dar consultoria pessoas que tenham tido formação profunda em métodos operacionais (SENAI, por exemplo), e que tenham boa prática na procura de alternativas. Outras fontes de consultoria especializada podem ser supervisores e contramestres experientes no assunto.

Destacamos a seguir alguns pontos fundamentais que aprendemos na convivência com empresas que buscaram solucionar seus problemas em relação a ferramentas críticas.

Eliminação das marretas

Em princípio, não existe operação segura ao se usar marreta. Alguns podem argumentar que a marreta só seria considerada insegura se tivesse sua ponta desgastada, formando rebarbas semelhantes a cogumelos, trincas visíveis e lasqueamento das bordas. Idem para a punção. Discordamos desse ponto de vista, pois esse conceito coloca na responsabilidade dos operadores a inspeção de condições de um dispositivo em si altamente inseguro, mesmo quando a marreta e o punção não apresentam os sinais de desgaste citados. Deve-se assumir que as operações com marreta devem ser eliminadas, não apenas devido ao risco de acidentes graves, mas também devido ao enorme esforço que exige dos trabalhadores, podendo causar lesões musculoesqueléticas.

Eliminação das alavancas

Para prevenir acidentes com alavancas, é necessário encarar a questão em três frentes: (a) o uso das alavancas pelo pessoal de manutenção mecânica; (b) o uso das alavancas pelo pessoal operacional diante da necessidade de esforços de maior exigência; (c) a improvisação de alavancas para operar partes mecânicas quando sensores e meios físicos de movimentação falham.

Em todas as situações, há necessidade de estudos detalhados das condições de trabalho, buscando soluções técnicas adequadas. Mas, assim como no caso das marretas, é mandatório proibir totalmente o uso de alavancas.


No próximo artigo:

Piso Inimigo – Como diversos acidentes de trabalho são causados por más condições do piso



4 Comentários

  • wagner fagiani

    Detalhes técnicos importantes para orientação nas empresas e, o médico perito, conhecer detalhes para avaliação pericial com relação ao fatos abordados.

  • como sempre, conteúdo relevante, acessível, aplicável. Sempre repasso para empresas sérias de Medicina do Trabalho que destacam a utilidade dos diagnósticos e práticas para mitigar riscos.
    Com a admiração de sempre.
    Georgina Alves Vieira da Silva

  • JOEL ANCELMO GIUBERTI

    Bom dia toda equipe ERGO.
    Grato pelo material enviado.
    Gosto muito dos artigos do Dr. Hudson.

  • Santiago de Sa Nunes

    Muito obrigado à equipe Ergo que vem se dando ao máximo para tornar as equipes por onde passam cada vez mais preparadas para a utilização dos óculos da Ergonomia …tema muito relevante, referente á utilização de ferramentas inadequadas … os processos sem o dimensionamento correto no momento certo com o profissional treinado tende a fazer ajustes grotescos que caminham para rumos trágicos, sendo exemplo a utilização de ferramentas improvisadas nos processos …

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