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Informativo nº 76

PARA VENCER O JOGO DA ERGONOMIA: UM TIME DE 17 JOGADORES, UM BOM TÉCNICO E UM BOM DIRETOR DE FUTEBOL

Hudson de Araújo Couto - Setembro de 2006

18.09 Diz-se que futebol é paixão nacional. Entre a alegria da conquista de um título e a tristeza de uma desclassificação ou um rebaixamento, nos perguntamos o que levou um time a ganhar ou a perder e nos damos conta de que uma das melhores definições do futebol está contido no nome original desse desporto, football association indicando esse último termo, a necessidade de um trabalho coletivo visando o sucesso, ou seja, ganhar jogos.

            Tenho falado recentemente que o sucesso ao tratar a questão ergonômica na empresa se assemelha a um time de futebol bem entrosado.E assim como no futebol, ninguém ganha o jogo da ergonomia sozinho. É necessário todo um trabalho de equipe. Visando esclarecer para o leitor a necessidade desse trabalho conjunto, faço a seguir a comparação do time da ergonomia com  um time de futebol. 

O jogo em questão é o da ERGONOMIA contra o RISCO ERGONÔMICO.

A tática de jogo: a melhor defesa é o ataque!

Os dois grandes objetivos de um time de futebol são: marcar gols e não levar gols. Para isso, há que se ter bons jogadores e um bom esquema tático.

            Marcar gols significa resolver os problemas ergonômicos. Levar gols significa ter trabalhadores afastados por questões ergonômicas e toda a sua problemática: difícil reintegração ao trabalho, processos de indenização pelo dano, ações do Ministério Público do Trabalho, pressão do sindicato e de outros atores sociais interferindo no ambiente operacional das empresas e exigindo dos seus gerentes um grande esforço para atender a uma demanda não relacionada à produção e aumentando muito o custo indireto das operações.

Quem acompanha futebol sabe bem que os esquemas táticos variam muito: 4-2-4, 4-3-3 ou outros. Mas todos sabem que times de futebol vencedores utilizam o princípio de começarem a se defender lá na frente, no ataque. Quando se utiliza essa tática, raramente a bola chega até o seu gol, dando pouco trabalho para a defesa. Essa deve ser a tática de nossa equipe de Ergonomia. Evitar que a bola do adversário chegue até a nossa defesa. E quem é o nosso adversário? É a lesão ergonômica do trabalhador. É o estresse excessivo. É a alta carga mental. É o afastamento do trabalho, é o absenteísmo elevado. É a situação de desconforto, dificuldade e fadiga. São os prejuízos de produtividade associados a esses fatores.
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A escalação do time
            Tendo em mente que nosso esquema tático é “a melhor defesa é o ataque”, vamos começar a escalação pelo ataque.

a) O ataque
            Os atacantes do time são: o gerente de produção, o trabalhador, o líder e ergonomia, a área de Engenharia, a área de Manutenção,   a área de Tempos, Métodos e a área Logística.  Explicando: são esses 7 atores os que marcam gols ao solucionar os problemas ergonômicos, e, com isso, possibilitar ao trabalhador executar sua atividade tranqüilo, sem situações biomecanicamente erradas e sem sobrecarga causadas pela desorganização do trabalho.

            Detalhando,
- Um  gerente de produção comprometido com sua área e com o bem-estar dos trabalhadores,  é o elemento mais importante do ataque de nosso time da Ergonomia: ele encara as questões ergonômicas como prioritárias, tanto quanto outros aspectos de produtividade, prazos de entrega, custo e qualidade. Ele entende a necessidade de resolver as situações ergonomicamente inadequadas e busca fazer com que as questões anti-ergonômicas mais críticas sejam estudadas e estabelece planos de ação compatíveis com soluções eficazes, inclusive alocando recursos financeiros no orçamento. E depois do plano de ação elaborado, cobra de seus subordinados a efetiva concretização das melhorias. Um gerente não comprometido com ergonomia deve ser trocado rápido; ou deve rapidamente se comprometer. Ele não pode, nunca, boicotar os esforços ou apenas  fingir que joga no time da empresa.

- O trabalhador experiente, colaborativo, legítimo entre os seus colegas e que sente as dificuldades de trabalhos ergonomicamente incorretos, é peça fundamental para que a solução ergonômica desejada seja a mais adequada. Ele informa os aspectos críticos da tarefa, participa dos estudos ergonômicos, de testes de soluções, consulta seus colegas de trabalho e está envolvido na solução, inclusive testando-a antes de considerar que a mesma está concluída. Os trabalhadores também  podem  marcar gols quando fazem parte de círculos de controle de qualidade e outros movimentos que estimulam as boas idéias, resolvendo assim questões ergonômicas do tipo “ver e agir”.

- O líder de ergonomia é uma pessoa da área produtiva, geralmente um técnico operacional ou mesmo um supervisor (facilitador), que recebe a incumbência de resolver as questões ergonômicas em sua área de trabalho; ele passa a ser responsável pelas questões ergonômicas e por se interessar pelas questões e encaminhá-las adequadamente, visando a solução; seu papel é essencial em todos os pontos do processo, mas ele tem três  papéis fundamentais no time: auscultar os trabalhadores em suas manifestações quanto a situações de desconforto, dificuldade e fadiga; realizar  pequenas melhorias, geralmente feitas a um custo bastante baixo; e puxar os projetos ergonômicos de sua área de atuação.

- A área de Engenharia eficaz  estabelece padrões corretos, elabora projetos bem feitos, estuda ergonomia nos novos projetos, desenvolve projetos de correção de condições ergonomicamente inadequadas e busca soluções mecânicas, eletrônicas e outras visando corrigir as condições inadequadas. Um dos maiores gols da engenharia é a boa engenharia de produção, com baixo nível de retrabalho (é importante lembrar que o retrabalho se constitui numa das principais causas de sobrecarga sobre os trabalhadores).

- Temos ainda, como bastante importante, no ataque de nosso “time da Ergonomia”, a área de Manutenção. Seus gerentes e mecânicos são capazes de modificar máquinas, resolvendo pontos de dificuldade e tornando o trabalho mais fácil. Comumente nas áreas de manutenção mecânica ou elétrica temos um “Professor Pardal”, capaz de enxergar os detalhes da dificuldade e criar dispositivos que facilitam o trabalho do operador.

- A área de Métodos e  Tempos é extraordinariamente importante: um tempos correto para a execução do trabalho evita sobrecarga sobre o trabalhador, métodos corretos prevêem os tempos devidos de recuperação de fadiga, evitam posições estranguladas e proporcionam bom balanceamento das diversas posições de trabalho.

- Em empresas de manufatura, um dos elementos chaves do ataque do time da Ergonomia é a área de Logística de Materiais (geralmente trabalhando diretamente com o Planejamento e Controle da Produção); atuando adequadamente, essa área supre os materiais aos postos de trabalho, evitando faltar peças durante a montagem e evitando atrasos na entrega de produtos aos clientes, atrasos esses geralmente acompanhados de horas extras, dobras de turno, trabalho aos sábados, domingos e feriados, fatos esses considerados como “por lenha na fogueira” no caso de atividades com sobrecarga para membros superiores.

b) O meio de campo

            No futebol, os jogadores do meio de campo têm duas funções básicas: desarmar o adversário naquela região do campo, bem antes da defesa, e armar jogadas para que o ataque marque gols.. Nessa posição do campo, visando o sucesso da ergonomia, necessitamos dos seguintes parceiros no time da Ergonomia: o Coordenador do Comitê Local de Ergonomia,  o consultor interno de ergonomia, o pessoal da Segurança do Trabalho, o  secretário executivo do Comitê  e o pessoal de RH.

            Detalhando:
- O coordenador do Comitê Local de Ergonomia é o elemento mais importante nessa seção do campo;  geralmente essa função cabe a  um engenheiro/técnico da área operacional, que executa exatamente o papel do meia-armador do futebol; ele coordena os estudos ergonômicos, orienta o comitê local de ergonomia em análises detalhadas e profundas, procurando ver com o médico ocorrências no ambulatório, e articulando o trabalho dos líderes de ergonomia e da engenharia com o do pessoal de manutenção, de projetos e outros. O resultado final do seu trabalho é levar estudos ergonômicos bem feitos até o gerente, para que este marque o gol (assine o plano de ação já previamente estudado, programando a solução do problema). Também compatível com a comparação do futebol na posição de meia-armador, no caso da solução ergonômica se aplica a máxima do futebol: “quem recebe a bola é quem se desloca e pede”. O coordenador do Comitê de Ergonomia tem que se saber se deslocar, ir até a área de engenharia, articular esforços entre essa área, tempos e métodos, manutenção, PCP e a gerência, inclusive correndo atrás de dotações orçamentárias para a solução ergonômica.

- O consultor de ergonomia, bem preparado tecnicamente, representa aquela pessoa capaz de fazer estudos técnicos profundos, definindo de forma objetiva e científica quanto à existência ou não de risco ergonômico em determinadas situações de trabalho; sua análise ergonômica bem feita da situação lhe permite estudar alternativas de soluções (alternativas de jogadas visando marcar gols), sendo ele também capaz de estudar em profundidade  determinada questão ergonômica, definindo quanto à intensidade do risco ergonômico eventualmente existente.

- O pessoal de Segurança do Trabalho cumpre o papel importantíssimo de ver, enxergar, no seu dia-a-dia, situações de risco ergonômico; na linguagem do futebol, eles estão sempre atentos para perceber jogadas perigosas do adversário (do risco ergonômico) e que possam resultar em problemas para a defesa.

- O  Secretário Executivo do Comitê de Ergonomia desempenha o importantíssimo papel de documentar as ações e garantir a documentação de evidência bem feita. (É importante lembrar que uma das formas de levar gol na questão ergonômica é quanto a empresa é multada ou sofre sanções por não ter documentado as ações que tenha tomado).

- E a área de RH é uma parceira eficaz quando recruta pessoal na hora certa, não deixando faltar gente (a falta de pessoal é uma causa importante de sobrecarga sobre os trabalhadores); mas também quando treina bem os trabalhadores, tornando-os aptos para as funções que irão executar; quando percebe o impacto de carga mental do trabalho sobre os trabalhadores; e também o impacto da carga tensional quando na área operacional existem gerentes ou supervisores altamente estressantes sobre os trabalhadores, detectando esses fatos e propondo ações sobre eles.

A escalação da defesa
Um ponto importante para o leitor refletir é que o Serviço Médico costuma ser a caixa de ressonância dos problemas da empresa. Em outras palavras, quando o adversário (risco ergonômico) não é vencido, pela turma do meio de campo e do ataque, começam a chegar queixas no ambulatório médico. Aqui, na escalação do time, temos o médico do trabalho, o pessoal de enfermagem do trabalho, o fisioterapeuta/ terapeuta ocupacional e a assistente social.

Detalhando:

- Médico do trabalho – representa o principal elemento nesta área do campo. Em seu papel, cabe a ele examinar o trabalhador possivelmente acometido por uma lesão relacionada à condição anti-ergonômica e fazer o diagnóstico diferencial e estudar o nexo com o trabalho; cabe também a ele responsabilizar-se pelo trabalhador acometido e encaminhá-lo aos melhores recursos assistenciais disponíveis, de tal forma a não permitir que o caso se agrave; deve o médico do trabalho montar uma equipe assistencial de confiança, composta de ortopedista, reumatologista, fisiatra, cirurgião de membros superiores, ultra-sonografista, especialista em diagnóstico por ressonância magnética, fisioterapeuta e psicólogo, de forma que o trabalhador receba o melhor tratamento possível; assim, as lesões irão evoluir melhor, evitando agravamentos; cabe também ao médico do trabalho zelar para que o trabalhador acometido por uma patologia ocupacional tenha seus direitos respeitados (estabilidade no emprego e emissão da CAT), cabendo ainda a ele ter uma visão crítica da complexidade da questão social LER, posicionando-se corretamente e orientando a empresa para um posicionamento também correto . Seu cuidado com o prontuário médico, com correção dos exames e anotações desde o admissional, passando pelas revisões periódicas bem feitas e por um demissional criterioso, evita também um outro tipo de prejuízo ligado à questão ergonômica: outras questões e interesses que tentam passar por lesão ergonômica.

- O Pessoal de Enfermagem do Trabalho, com os dedicados técnicos e auxiliares de enfermagem e a enfermeira do trabalho, buscando sempre dar ao trabalhador o melhor tratamento disponível, também é fundamental na defesa. Atualmente, nas táticas de futebol, o pessoal de zaga costuma avançar para apoiar o ataque. Em nosso jogo, isso também acontece, através da ferramenta censo de ergonomia. Aproveitando a ocasião da revisão médica do PCMSO, o pessoal de enfermagem pode entrevistar o trabalhador e perguntar a ele: “o que você faz em sua atividade que lhe causa desconforto, dificuldade ou fadiga?” Através de um roteiro bem estruturado, descobre-se uma série de riscos ergonômicos bem antes que eles resultem em queixas no ambulatório médico.

- Fisioterapeuta ou Terapeuta Ocupacional – são outros dois ocupantes da zaga do time da Ergonomia; com seu conhecimento profundo sobre cinesiologia, movimentos e trabalho, podem ajudar bastante na identificação de grupamentos musculares mais acometidos pelo trabalho, orientando assim o pessoal de meio de campo e do ataque quanto a movimentos críticos na atividade laborativa; também são capazes de ministrar tratamentos fisioterápicos eficazes, de forma a evitar o agravamento de lesões em suas fases iniciais. Orientam sobre exercícios físicos compensatórios e técnicas de distensionamento, especialmente nos intervalos de exigências biomecânicas do trabalho, e podem, com um preparo complementar, entender bem mais de ergonomia, passando a jogar no  meio de campo, na posição de consultor de ergonomia. (Algumas dessas funções podem também ser exercidas por um educador físico que tenha estudado ergonomia).

- Assistente social – profissional de extraordinário valor no time da Ergonomia, ela é a pessoa que evita que o trabalhador acometido por alguma lesão fique sem assistência médica correta. Sabemos que todas as vezes que perdemos de vista o trabalhador com lesão ergonômica costumamos perder o trabalhador; assim, este profissional nos dá uma ajuda extraordinária,  zelando para que o trabalhador tenha acesso aos recursos assistenciais mais adequados e zelando também pela continuidade do tratamento.

Por fim, o goleiro
            O goleiro, no time da Ergonomia, é o advogado. É importante que ele não divida a responsabilidade; deve ser um só, firme, com atuação eficaz o suficiente para que, uma vez tendo havido uma lesão relacionada à ergonomia, que não se leve outros gols indesejáveis e também para que não se leve gols por perdas relacionados a outras questões camufladas de problemas ergonômicos. No jogo de futebol, costumamos ver o goleiro gritando para seus companheiros, indicando pontos de fragilidade da defesa. Assim também, o advogado da empresa deve identificar pontos em que a mesma está vulnerável e que acabam criando uma pressão forte contra seu gol, difícil de defender (por exemplo, ele tem que alertar o meio de campo e o ataque quanto à existência de horas extras excessivas, que criam dificuldade enorme na defesa jurídica da empresa diante de processos). Por fim, é importante lembrar que, assim como um goleiro eficiente, o advogado deve criar uma defesa robusta da empresa quando a mesma tiver razão.

O técnico e o diretor de futebol
           
O técnico do time representa a consultoria externa competente em Ergonomia. A rigor, o técnico não joga, mas orienta bem o time sobre como se posicionar em campo e que ações tomar visando os dois objetivos: marcar gols e não levar gols. Assim, cabe ao consultor de ergonomia passar aos diversos componentes da empresa os conceitos técnicos fundamentais de Ergonomia. Um de seus papéis fundamentais é dar entrosamento ao time, pois de nada adianta ter excelentes jogadores com talento individual, se o time não estiver entrosado. Também é seu papel injetar determinação de vitória no time. Deverá estar atento aos novos valores que aparecem na empresa, e finalmente, cabe à consultoria cobrar desempenho das diversas áreas nas atividades que lhes cabem no esforço pela melhoria das condições ergonômicas.
           
O diretor de futebol significa a diretoria da empresa comprometida com a Ergonomia. Não se trata de simplesmente dar apoio. É muito mais do que isso: é comprometimento, ou um termo muito forte em inglês: commitment. Significa, na prática, que o esforço da Ergonomia é “pra valer”, que não irá faltar apoio para as decisões, especialmente naquelas situações que envolvem conflitos de interesse e ou quando há necessidade de dotação orçamentária para corrigir questões críticas.

A proximidade
Uma das características marcantes de ataques eficientes em times de futebol é a proximidade dos atacantes, que permite boas tabelas e criação de jogadas de gol. Também na ergonomia, a proximidade entre a área de engenharia, trabalhador, coordenador do comitê e gerente contribuem muito para que as questões ergonômicas sejam bem estudadas, construindo-se a melhor solução.

A necessidade de não perder a concentração
Um dos fenômenos vistos com freqüência num jogo de futebol é que o time perde a concentração em alguns momentos (um vacilo)  e ele leva gol! O time da Ergonomia, conforme aqui escalado, deve estar sempre vigilante para não levar gols. Deve criar indicadores de processo (a serem acompanhados mensalmente) e indicadores de resultados (a serem acompanhados de 3 em 3 meses em reunião do time com o técnico e com o diretor de futebol). Nessas avaliações, acertam-se mudanças na tática do jogo visando garantir a vitória.

Reabilitação de lesionados
Esse time, bem escalado, pode também assumir o trabalho de reintegração dos funcionários já lesionados, traçando um projeto de aproveitamento racional de suas capacidades, em postos de trabalho ergonomicamente melhorados.

Quem quiser jogar sozinho, desista!
Querer atuar na questão ergonômica sem um time é praticamente impossível. Ainda voltando ao futebol, lembro-me bem do primeiro jogo da Copa do Mundo de 2002. Foi a partida entre Alemanha contra Arábia Saudita. O time árabe só tinha o goleiro. O resultado foi oito  a zero para a Alemanha. Lembram-se?

Assim também, se você é o médico do trabalho ou é da área de segurança ou fisioterapeuta e percebe que está sozinho na questão ergonômica, tente formar o time. Abra o jogo quanto à necessidade desse esforço coletivo. Caso não seja possível, mesmo que você seja tecnicamente competente e responsável, considere seriamente o estresse que você sentirá ao se ver jogando sozinho e só levando gols e vendo, dia após dia, mais trabalhadores com lesão relacionada às más condições ergonômicas!