| COMO FAZER A ANÁLISE ERGONÔMICA
REFERENTE À ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO
Hudson de Araújo Couto
Nos últimos tempos, a forma como o trabalho
está sendo organizado vem sendo apontada como
responsável por uma série de transtornos
à saúde do trabalhador, especialmente
os distúrbios musculoesqueléticos e os
transtornos mentais.
A Norma Regulamentadora no. 17, editada pela Portaria
3751 do Ministério do Trabalho, em novembro de
1990, teve como um dos grandes componentes a introdução
da questão da organização do trabalho
no escopo da Ergonomia. A citada portaria dedica toda
a seção 17.6 a essa questão e ali
são colocados como relevantes os seguintes aspectos:
- A organização do trabalho deve
ser adequada às características psicofisiológicas
do trabalhador - observe-se que, nesse item,
há a clara referência da importância
de ser considerado o aspecto psicológico das
pessoas envolvidas no trabalho; no mesmo item, logo
adiante, diz também que a organização
do trabalho também deve estar adequada à
natureza do trabalho a ser executado.
- Diz também que a organização
do trabalho, para efeito desta norma, deve levar em
consideração as normas de produção.
Explicando melhor a intenção dos elaboradores
da citada portaria, o Ministério do Trabalho
em Emprego editou em 2002 o Manual de Aplicação
da NR-17, no qual define que esse item se refere a "todas
as normas, escritas ou não, explícitas
ou não, que o trabalhador deve seguir para realizar
a tarefa". Um aspecto importante a ser
visto aqui é a contradição
tensionante, ou seja, aquela situação
em que existe uma orientação em um sentido
de ação e ao mesmo tempo existe outra
em outro sentido, ocasionando tensão para o operador.
- Outro item a ser observado na organização
do trabalho é o modo operatório,
entendido segundo o Manual de Aplicação
como as atividades e operações que
devem ser executadas para se atingir o resultado final,
o objetivo da tarefa. Aqui, alguns aspectos importantes
a serem vistos são a prescrição
e o real, a flexibilidade versus a inflexibilidade e
a questão da padronização adequada
versus a rigidez, entre outros.
- Deve-se observar ainda a exigência de tempo,
explicada pelo Manual de Aplicação como
a verificação da pressão de
tempo, se é considerada ou não a questão
da variabilidade e de incidentes e da margem de liberdade
do trabalhador.
- Ainda, pede-se a análise do conteúdo
de tempo, certamente linguagem pouco clara, mas
que o Manual de Aplicação tenta colocar
como verificação de tempos produtivos
versus improdutivos, existência ou não
de tempo de recuperação de fadiga e de
tempo para incidentes.
- E verificação do ritmo de trabalho,
fazendo-se a diferenciação entre o ritmo
(aspecto subjetivo) e cadência (aspecto objetivo),
verificando a possibilidade de o trabalhador autogerenciar
o ritmo. Observe-se ser este um fator relativamente
fácil de observação na análise
ergonômica da organização do trabalho.
Deve-se destacar que no caput do item 17.6, a
NR diz que a análise da organização
do trabalho deve levar em consideração
no mínimo os itens citados antes. Mas, como o
leitor deve ter concluído, não é
tão simples concluir se a organização
do trabalho está ou não contribuindo para
uma situação anti-ergonômica, conforme
percebido nos parágrafos anteriores.
Os desafios para os profissionais do SESMT, especialmente
para o médico do trabalho, quanto a este tema,
são três: primeiro, entender do que se
trata; segundo, detectar objetivamente o fenômeno;
e terceiro, acertar na forma de atuação
de maneira que se possa ter uma ação preventiva
eficaz, objetivo maior de nossa especialidade.
1º desafio: Entender por que os problemas relacionados
à organização do trabalho podem
contribuir diretamente para a ocorrência de lesões
e transtornos mentais
O primeiro passo é entender o que é
organização do trabalho. Fundamentalmente,
é o manejo de 9 recursos, que poderiam ser expressos
por letras, para um entendimento fácil: T, 7
M e 1 D, a saber: tecnologia, maquinário, manutenção,
material, matéria prima, método, meio
ambiente, mão-de-obra e dinheiro. Qualquer que
seja o negócio da empresa, de indústria,
comércio ou serviço, o produto final da
mesma sai de uma forma mais eficiente se houver um manejo
adequado desses 9 fatores.
Um ponto importante para o entendimento é que
se algum desses fatores não for manejado corretamente,
o resultado poderá ser uma alta sobrecarga para
os trabalhadores e, conseqüentemente, a possibilidade
de transtorno e lesão.
As principais situações de sobrecarga
devido a problemas na organização do trabalho
que temos visto nos tempos atuais são:
1. Aumento da carga de trabalho, dos objetivos e metas,
sem preparo adequado para atendimento a esta situação
2. Insuficiência de pessoal para as exigências
da tarefa
3. Adensamento do trabalho sem uma base técnica
4. Horas extras, dobras de turno, trabalho aos sábados,
domingos e feriados
5. Mão-de-obra insuficientemente preparada para
as exigências da tarefa
6. Prazos assumidos sem a devida consideração
sobre a capacidade da mão-de-obra.
7. Urgências e emergências
8. Retrabalho
9. Falta de material para completar o trabalho
10. Problemas com a qualidade do material, exigindo
esforço extra dos trabalhadores
11. Materiais a serem manuseados causadores de distúrbios
ergonômicos
12. Sistemas auxiliares não ficam prontos na
ocasião adequada, causando sobrecarga sobre os
trabalhadores
13. Automações inadequadas e suas conseqüências
14. Falta de manutenção dos equipamentos,
causando esforço extra.
Os exemplos são muitos e as situações
acima citadas costumam vir acompanhadas de um outro
elemento complicador, a pressão excessiva sobre
os trabalhadores quando os resultados não são
atingidos.
2º desafio: Detectar objetivamente o fenômeno
Aqui se situa uma das maiores dificuldades, pois costumam
existir grandes dificuldades no estabelecimento de objetividade.
Na busca dessa objetividade, três ferramentas
se mostram especialmente eficazes:
- Vivência na área, percebendo-se as
dificuldades vividas pelo trabalhador, incluindo
a observação de fatos anômalos na
área; por exemplo, a existência de produtos
no chão pode indicar falta de material com produção
não interrompida, exigindo sobrecarga das pessoas
depois do expediente normal.
- A análise dos dados secundários da
própria empresa - na grande maioria das vezes,
a própria empresa tem dados conclusivos quanto
à existência de sobrecarga, pela comparação
de números de produção (número
de itens produzidos por trabalhador por mês -
comparação ao longo dos meses), número
de horas extras, quantificação das situações
de falta de material e outras formas, índices
de retrabalho, etc...
- Entrevista com os trabalhadores, buscando informações
objetivas quanto à sobrecarga; (o modelo por
nós utilizado pode ser visto no site da Ergo
(www.ergoltda.com.br)
- Entrevistas com os níveis de supervisão
e gerenciais, na qual se faz a checagem das informações
obtidas nas entrevistas com os trabalhadores.
A ordem dos procedimentos é a que está
acima, destacando que a entrevista com a supervisão
e gerência é a última etapa, pois
é feita numa situação em que o
entrevistador já conhece muito da realidade da
organização do trabalho.
Com essa metodologia, é possível definir
quais são principais aspectos relacionados à
gestão (ou à organização
do trabalho) que estão contribuindo para a ocorrência
de lesões e distúrbios relacionados à
Ergonomia.
3º desafio: Acertar na forma de atuação
objetivando a intervenção eficaz
Aqui, não há fórmula mágica.
O médico do trabalho ou profissional de Ergonomia
não é o administrador da área,
nem deve querer sê-lo com o objetivo de resolver
o problema. O plano de ação visando lidar
com os problemas de gestão detectados deve ser
feito, fundamentalmente, pela própria gerência,
após municiada de informações objetivas
que deveremos ter passado para ela. Por exemplo, caso
a análise dos dados tenha mostrado que o problema
da sobrecarga é por excesso de horas extras,
há que se formular um plano de ação,
em nível de alta gerência, para reduzir
as horas extras, trabalhando sobre a causa básica
das mesmas; outro exemplo, se uma sobrecarga está
sendo causada por uma carga excessiva de serviços
sobre uma equipe sub-dimensionada, há que se
ter um plano de ação bem controlado no
sentido de se ter a contratação adequada
de pessoal, definindo-se também os prazos.
Os principais obstáculos que temos encontrado
para uma correta gestão dos 9 fatores de organização
do trabalho são:
- Problemas com fornecimento de matéria prima
ou material, agravados nos tempos atuais de just-in-time
e de fornecimento de material em mercados globalizados;
- Programa de produção muito alto em relação
à real capacidade instalada da área;
- Bônus de produtividade para o alto nível
gerencial, muitas vezes fazendo com que os gerentes
tenham que enfrentar o dilema de efetivamente encarar
a capacidade produtiva mais baixa e reduzir o seu bônus
ou mantê-la mais elevada às custas de sobrecarga
do trabalhador.
- Áreas de tempos e métodos preocupadas
exclusivamente com a eficiência, aprovando tempos
irreais, sem alocar o devido tempo de recuperação
de fadiga e sem considerar o tempo necessário
para as imprevisibilidades, tão comuns no trabalho.
E levando as pessoas ao trabalho até a exaustão.
- A obsessão com o head-count, procurando
trabalhar com o quadros extremamente enxutos, com a
conseqüente alta sobrecarga sobre os trabalhadores.
Mas o problema que mais encontramos é a baixa
capacidade gerencial e da supervisão em administrar
bem os 9 elementos acima citados (tecnologia, maquinário,
manutenção, material, matéria prima,
método, meio ambiente, mão-de-obra e dinheiro),
justificando a afirmação de que em empresas
ou áreas bem administradas a incidência
dos distúrbios musculoesqueléticos e de
transtornos mentais é baixa.
Conclusão
Obter o comprometimento da alta gerência com
a solução dos problemas de gestão
causadores de sobrecarga e elaborar planos de ação
eficazes trata-se, certamente, de uma das tarefas mais
difíceis. Não é intenção
desse artigo citar como isso pode ser feito. Mas destacamos
que a consciência do alto nível gerencial
quanto à existência dos fatores de sobrecarga
decorrente da gestão (da organização
do trabalho), sem práticas de negação
do fenômeno, é um dos pontos fundamentais
de uma ação preventiva eficaz.
Quanto às técnicas de melhoria da organização
do trabalho, em manufaturas, as principais recomendações
de boa administração foram propostas por
SLACK (1993, 1997) e por SUZAKI (1987); além
disso, os tradicionais conceitos de prevenção
de perdas (BIRD e FERNANDEZ , 1977) são válidos
para qualquer tipo de organização.
Mas constatamos que, muitas vezes, o pessoal do SESMT
próprio da empresa costuma ser insuficiente para
garantir mudanças na melhoria da gestão
das empresas e a sobrecarga continua ocorrendo.
Nessa circunstância, de impossibilidade de solução
interna, duas práticas de controle social têm
sido freqüentemente adotadas: a pressão
exercida pelas autoridades do trabalho (Ministério
do Trabalho e Ministério da Saúde) para
a existência de comitês mistos, com participação
dos trabalhadores nas decisões; e o envolvimento
do Ministério Público do Trabalho, que,
através de um Termo de Ajustamento de Conduta,
interfere diretamente na organização do
trabalho, principalmente através do estabelecimento
de pausas obrigatórias, pré-definidas,
ao longo da jornada, e proibição de horas
extras, responsabilizando diretamente o dirigente da
empresa que não cumprir estas limitações.
Referências citadas neste texto:
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, Manual de
Aplicação da Norma Regulamentadora N.o
17, Brasília, 2002, 101 p.
BIRD,F., FERNÁNDEZ, F. Administracion del control
de perdidas. New
Jersey:Conselho Interamericano de Segurança,
1977.
SLACK, N. Vantagem competitiva em manufatura. São
Paulo: Atlas. 1993, 198p.
SLACK, N. e outros Administração da Produção,
São Paulo, Atlas, 1997, 725 p.
SUZAKI, K. The new manufacturing challenge: techniques
for continuous
improvement. New York: The Free Press, 1987.255 p.
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