ERGONOMIA E ORGANIZAÇÃO
DO TRABALHO
COMO UM PROBLEMA ERGONÔMICO PODE SER AGRAVADO
POR FATORES DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO
E FORMAS DE PREVENÇÃO (*)
Hudson de Araújo Couto
Recentemente, tem-se falado muito em organização
do trabalho e sua relação com a Ergonomia.
A rigor, a própria regulamentação
brasileira sobre Ergonomia (NR-17) prevê alguns
itens relacionados a esse tema. Mas, com a falta de
clareza no que se pede na NR-17, muitos profissionais
de higiene, segurança e medicina do trabalho
ficam sem saber como interpretar uma determinada situação
se relacionada ou não à organização
do trabalho. Não é intenção
desse artigo dar respostas à questão da
interpretação da NR-17, mas sim de mostrar
as situações mais comuns em que um risco
ergonômico é causado ou precipitado por
disfunções na organização
do trabalho. E, naturalmente, é intenção
orientar sobre o que fazer para diminuir os riscos ergonômicos
decorrentes de desacertos em como o trabalho é
organizado.
O que é organização do trabalho?
É todo o conjunto de ações feitas
pelo gestor e pelos facilitadores para que a prescrição
de trabalho (objetivos, planos e metas) ditada pela
direção da organização sejam
cumpridos.
Qualquer que seja o negócio e a atividade, organiza-se
o trabalho com 1 T e 7 M: Tecnologia, Máquinas,
Manutenção, Matéria Prima, Material,
Método, Meio Ambiente e Mão-de-obra. Quando
há falha em algum desses pontos, ocorrem problemas
importantes para o resultado operacional e, concomitantemente,
pode haver sobrecarga sobre o trabalhador, resultando
num problema de natureza ergonômica que não
existiria caso a organização do trabalho
estivesse correta.
Esse tipo de entendimento é bastante importante
na moderna Ergonomia, pois, com enorme freqüência
nos tempos atuais, as organizações vêm
adotando objetivos altamente desafiadores de forma
pouco racional, sem considerar as condições
para que eles sejam atingidos e, conseqüentemente,
tem havido sobrecarga sobre os trabalhadores.
Explicando melhor, as empresas estão enfrentando
dificuldades relacionadas ao aumento enorme da competitividade:
a) dificuldade de competir em mercados globalizados;
b) atendimento a encomendas não planejadas;
c) premência na redução de custos;
d) superação do desafio da pontualidade
e confiabilidade nas entregas;
e) diversificação do produto de forma
a atender às demandas do mercado, evitando perder
clientes pela falta de flexibilidade;
f) superação dos problemas de atraso e
parada no processo produtivo por falta de material,
por equipamentos defeituosos ou por falta de gente;
g) atendimento aos padrões mínimos de
qualidade do mercado;
h) aumento da eficiência de cada trabalhador.
A forma de se resolver tais tensões e dificuldades
é, naturalmente, recorrendo aos bons preceitos
das técnicas da Administração,
e não à sobrecarga sobre os trabalhadores.
Organizando-se mal o trabalho, a conseqüência
costuma ser a indesejada sobrecarga.
Características ideais da organização
do trabalho visando a prevenção de transtornos
sobre o trabalhador
São elas:
1. Racionalidade operatória acompanhando a racionalidade
prescritiva. Isso quer dizer: ao se estabelecer objetivos,
planos e metas, deve-se privilegiar a racionalidade:
avaliar a real condição de se conseguir
aquele objetivo. E fazer um adequado planejamento do
trabalho considerando: tecnologia adequada, com mínimo
de sobrecarga, maquinário adequado, manutenção
adequada das máquinas e das condições
de trabalho, matéria prima e materiais a serem
manuseados pelo ser humano ocasionadores de pouca sobrecarga,
método correto e mão-de-obra suficiente
e qualificada.
2. O ser humano aceita alguma sobrecarga, porém
o limite entre tensão construtiva e stress é,
muitas vezes, difícil de ser estabelecido.
Fatores de organização do trabalho
causadores de sobrecarga
Os que mais temos encontrado atualmente nas organizações
são:
1. Aumento da carga de trabalho, dos objetivos
e metas, sem preparo adequado para atendimento a esta
situação - é o que mais ocorre;
pode-se denominá-lo de aumento atabalhoado da
produção, sem verificar condições
dos equipamentos, da logística e da mão-de-obra.
Também é comum, como parte desse contexto,
o desrespeito à velocidade de processo ditada
pela Engenharia Industrial.
2. Insuficiência de pessoal para as exigências
da tarefa- decorrente principalmente da não
contratação de pessoal e da não
reposição de pessoal, origina alguns dos
fatores a seguir citados, além de esquemas de
almoço (a pessoa não tem o tempo regulamentar
de descanso nem durante o intervalo de almoço),
aumento da velocidade da esteira, posições
estranguladas sem pausas para possibilitar alívio
ao trabalhador.
3. Adensamento do trabalho sem uma base técnica
- trata-se de um dos fatores atuais mais causadores
de fadiga. Com a redução do efetivo, mais
e mais tarefas são colocadas para o trabalhador.
Se antes ele tinha que controlar 4 máquinas,
passou para 6, depois para 8 e assim por diante; se
antes controlava uma área, agora controla o processo
em duas ou três, tendo que se desdobrar para atender
à prescrição. Se antes tinha algumas
habilidades fundamentais, agora tem uma série
delas. O problema do adensamento é quando ele
é feito sem controle, ocasionando fadiga e sobrecarga
e tornando o trabalhador vulnerável aos distúrbios
músculo-esqueléticos e às manifestações
de tensão excessiva e stress.
4. Horas extras, dobras de turno, trabalho aos
sábados, domingos e feriados - Torna-se um fator
crítico em tarefas repetitivas. Também
podem vir acompanhadas de sobrecarga tensional, em função
de interferir em aspectos da vida particular do trabalhador.
5. Mão-de-obra insuficientemente preparada
para as exigências da tarefa - Costuma ocasionar
sobrecarga da mão-de-obra existente. Costuma
também ser causada por menosprezo à complexidade
das tarefas, assumindo-se prazos muito curtos, ocasionando
horas extras, dobras de turno e outras formas de sobrecarga.
6. Prazos assumidos sem a devida consideração
sobre a capacidade da mão-de-obra.
7. Urgências e emergências - A falta
de planejamento do trabalho ou o planejamento inadequado
costuma resultar em uma alta freqüência de
urgências e emergências, geralmente tratadas
com os mesmos recursos: horas extras, dobras de turno
e aceleração da velocidade do processo.
8. Retrabalho - os problemas de qualidade, muitas
vezes ocasionam sobrecarga para o pessoal envolvido
no final da linha (no seu sentido amplo), que será
obrigado a trabalhar mais rápido, a fazer horas
extras, trabalhar aos sábados e domingos e a
dobrar turnos.
9. Falta de material para completar o trabalho
- tal é o caso de linhas de produção
e fábricas em geral e, quando o material chega,
exige-se do pessoal esforço extra para tirar
o atraso de produção, com horas extras,
dobras de turno e outros expedientes de sobrecarga.
10. Problemas com a qualidade do material, exigindo
esforço extra dos trabalhadores - tal é
o caso de componentes da indústria automobilística
que vêm com alguns problemas dimensionais, dificultando
o trabalho e aumentando a taxa de ocupação
do trabalhador. Se esta estiver já muito apertada,
a conseqüência natural é que se torne
uma posição estrangulada.
11. Materiais a serem manuseados causadores de distúrbios
ergonômicos - tal é o caso de tambores
e barricas muito pesados sem os respectivos meios de
manipulação, de sacas de 40,50 ou 60 kg,
de material que empedra ao longo do armazenamento e
gera dificuldades operacionais para o trabalhador.
12. Sistemas auxiliares não ficam prontos
na ocasião adequada, causando sobrecarga
sobre os trabalhadores. Por exemplo, um atraso no desenvolvimento
do software necessário para um aumento do número
de clientes pode ocasionar sobrecarga sobre os trabalhadores,
por terem que desenvolver manualmente uma carga muito
maior de trabalho.
13. Falta de manutenção dos equipamentos,
causando esforço extra. Tal é o caso
de comandos manuais ou pedais que, sem manutenção,
se tornam duros e causam sobrecarga; outro exemplo são
os elevadores que, em decorrência do cabo ceder
um pouco, se tornam desnivelados, originando um degrau
entre a porta do elevador e o piso, e conseqüentemente,
ocasionando grandes esforços ao colocar carrinhos
paleteiras dentro dos elevadores ou ao retirá-los.
14.3- Como prevenir
É muito importante a conscientização
de gestores e facilitadores quanto à adoção
de medidas adequadas visando a organização
do trabalho (balanço entre a prescrição
do trabalho e a condição para a sua execução)
e das conseqüências da não observância
desse balanço sobre os trabalhadores, especialmente
quando trabalha-se próximo ao limite da tolerância
humana.
Também é muito importante o envolvimento
dos trabalhadores nas reuniões de análise
das disfunções, de forma que os mesmos
possam manifestar os pequenos problemas operacionais
e de organização do trabalho que causam
grande sobrecarga, especialmente aqueles relacionados
à má qualidade de materiais/componentes
e aqueles relacionados a problemas de manutenção.
Ainda, é necessário que o SESMT esteja
em alerta constante quanto às diversas formas
de sobrecarga por problemas na organização
do trabalho: horas extras, dobras de turno, esquemas
de almoço, trabalho aos sábados, domingos
e feriados e outras disfunções.
Recorrendo à literatura técnica sobre
como organizar o trabalho especialmente para ser compatível
com as exigências dos temas atuais, sintetizamos
as recomendações de autores da área
da Administração:
Assim é que NIGEL SLACK (1993) discorre sobre
as diversas formas de atender a tais exigências,
especialmente em manufaturas:
"
Para aumentar a velocidade dos processos o autor
propõe 8 regras, uma das quais, de máxima
importância, é evitar simplesmente aumentar
a velocidade da esteira de produção, mas
procurar eliminar os tempos que não agregam valor
ao produto. Atuar também sobre métodos,
simplificando a tomada de decisões, adotando
princípios da engenharia de métodos de
posicionamento próximo de operações
seqüenciais, melhorando a confiabilidade interna
de equipamentos, procurando tornar a tecnologia mais
flexível, trabalhando para evitar falta de material
junto do trabalhador, reduzindo o tempo de troca de
matrizes e de preparação e também
trabalhando sobre o fator confiabilidade (qualidade).
" A pontualidade, segundo aquele autor,
é tão importante que deveria ser colocada
como um item de controle da alta gerência: controlar,
no mesmo documento, a data prometida da entrega e a
data real e, como objetivo, que o diferencial entre
as duas datas seja zero ou menor que zero (entrega antecipada).
Mas por que as empresas atrasam? Segundo SLACK, por
dois motivos: confusão e falta de controle. E,
segundo ele, uma das estratégias mais importantes
para melhorar a confiabilidade é ser realista
nos seus planos de produção, trabalhando
com uma ligeira folga; outra estratégia prioritária
é o desenvolvimento do senso interno de confiabilidade,
de tal forma que cada área seja controlada quanto
aos prazos que tenha assumido com seus clientes internos
(a confiabilidade interna é pré-requisito
para melhorar a confiabilidade externa); outro fator
importante é investir na tecnologia, procurando
manter um trabalho de manutenção preventiva
de alta qualidade, de forma que os profissionais possam
sempre contar com o equipamento funcionando (uma vez
que uma das causas principais da não confiabilidade
é a quebra de equipamentos) - para isso, check-lists,
verificações periódicas, e alto
investimento em manutenção preventiva;
ainda mais, é necessário estar devidamente
monitorizado para saber da ocorrência de fatos
que possam vir a perturbar a rotina com a devida antecedência,
de forma a se planejar alternativas.
" Ao se adotar uma estratégia de flexibilidade,
deve-se ter clareza quanto a dois aspectos da definição
da mesma: uma é a possibilidade de mudar (ou
flexibilidade na faixa) e a outra é a flexibilidade
de resposta (medida pelo grau de fluidez ou fricção
que ocorre no processo de mudança - ou quão
fácil ou difícil é mudar). Para
que a empresa adote a estratégia de flexibilidade,
ela deve se preocupar com ambos os aspectos. Assim é
que os aspectos de flexibilidade da faixa dizem respeito
a novos produtos, ao mix, ao volume e à entrega;
paralelamente, as ações visando obter
fluidez na resposta de flexibilidade dizem respeito
às adaptações de tecnologia, de
recursos humanos (polivalência), de suprimentos
e fornecedores e de sistemas que controlam a operação.
" Para reduzir custos, a primeira regra
é "nada de extremos", é o que
preceitua o autor: de um lado, devem-se evitar os espasmos
de corte de custos tão comuns nas empresas e,
de outro, trabalhar sobre a redução de
custos de uma forma organizada e firme, procurando compreender
os direcionamentos estratégicos de custos e buscando
entender as repercussões que outros objetivos
de desempenho têm sobre os custos. Especialmente
importante é a abordagem do autor quanto ao fenômeno
de dowsizing, tão comum nos tempos atuais, mostrando
que o melhor é o "rightsizing",
ou seja, o tamanho correto, preconizando, nesses casos,
que se corte o trabalho desnecessário, evitando-se
simplesmente demitir; que se mantenham intocáveis
os padrões de qualidade, que se mudem os métodos,
que se comunique o que está acontecendo a todo
o pessoal e que se cuide dos sobreviventes. O autor
recomenda ainda uma análise crítica de
onde se vai cortar, e mostra que, em geral, em manufaturas,
a mão-de-obra custa em torno de 15% e a compra
de materiais equivale a cerca de 55% do custo e, por
isso, o impacto de uma porcentagem de redução
é muito maior se aplicado na compra de materiais.
" Para conseguir produzir com qualidade,
hoje são bem conhecidos os modelos de administração
da qualidade baseados no TQC, também recomendados
por SLACK.
Outro autor importante na área de manufatura,
KIYOSHI SUZAKI (1987) propõe as ações
administrativas em 13 grandes áreas:
a) eliminação das 8 formas de desperdício;
b) housekeeping e organização do trabalho;
c) técnicas de melhoria dos set-ups;
d) mudança de leiaute e fluxo do processo direcionando-o
para o produto;
e) rodízio nas tarefas e polivalência do
trabalhador;
f) melhoria da produtividade atuando na engenharia do
processo em si;
g) utilização do ser humano para situações
em que sua potencialidade é melhor do que a da
máquina e vice-versa;
h) utilização de técnicas visando
a eliminação total de problemas em máquinas;
i) procedimentos visando evitar oscilações
bruscas no processo produtivo;
j) uso de técnicas como Kan-ban e Just-in-Time;
k) redefinição da movimentação
de cargas;
l) envolvimento das pessoas nas soluções;
m) soluções estendidas aos fornecedores.
As soluções administrativas de prevenção
de perdas, no sentido amplo do termo, tal como propostas
por BIRD & FERNÁNDEZ (1977) e por COUTO (1994),
podem ajudar muito as organizações no
seu processo de superar esses desafios e dificuldades.
(*) O texto acima é um dos capítulos
do livro COMO IMPLANTAR A ERGONOMIA NA EMPRESA- A PRÁTICA
DOS COMITÊS DE ERGONOMIA a ser lançado
pela Ergo Editora no dia 2 de maio de 2002, durante
o Seminário sobre este tema (ver matéria
neste Informativo).
REFERÊNCIAS:
BIRD,F., FERNÁNDEZ, F. Administracion del control
de perdidas. New
Jersey:Conselho Interamericano de Segurança,
1977.
COUTO, H.A.Qualidade e excelência em higiene,
segurança e medicina do
trabalho. Belo Horizonte: Ergo, 1994. 440 p.
SLACK, N. Vantagem competitiva em manufatura. São
Paulo: Atlas. 1993, 198p.
SUZAKI, K. The new manufacturing challenge: techniques
for continuous
improvement. New York: The Free Press, 1987.255 p.
|