GERENTES E SUPERVISORES: DE FEITORES
A FACILITADORES
(A Evolução do Papel das Chefias na Empresa
nos últimos anos e a Inserção da
Ergonomia como Necessidade Administrativa)
*Hudson de Araújo Couto
A mudança pela qual passam as organizações
nos últimos tempos é impressionante, a
ponto de podermos caracterizar a atualidade como a época
da Revolução da Produtividade. As revoluções
são eventos em que se muda todo o referencial,
passando-se para um paradigma diferente. Assim foi a
primeira Revolução Industrial, iniciada
com a máquina de fiar, com o tear mecânico
e depois cristalizada com a máquina de vapor,
de James Watt. Ela originou toda uma mecanização
de conseqüências avassaladoras, enterrando
o antigo paradigma agrícolo-comercial da sociedade.
Assim foi a 2a Revolução Industrial, iniciada
no final do século XIX com Taylor e cristalizada
no modelo de organização do trabalho industrial
conhecido como fordismo. Ela originou a forma de produzir
de maior duração que já se viu
na história do trabalho: a análise racional
da tarefa, linhas de montagem, trabalhadores em posição
fixa, repetindo a mesma atividade centenas e milhares
de vezes por turno, num ritmo cadenciado, determinado
pela velocidade das esteiras.
Atualmente, um novo paradigma acontece nas indústrias
e nas empresas de serviço: é a Revolução
da Produtividade, sustentada em 4 pilares básicos:
a mudança da base tecnológica (microeletrônica
em todos os processos, plásticos de alta densidade,
biotecnologia, radiações eletromagnéticas
e radiofreqüências), a mudança da
organização do trabalho (com o aparecimento
de células, grupos semi-autônomos, Just-in-Time
e outros), a mudança nas tecnologias gerenciais
(a adoção gradativa da abordagem sistêmica,
cujo representante mais atual é a Qualidade Total,
ao lado da abordagem contingencial - com downsizings
e outras dezenas de técnicas atuais) e a mudança
nas relações de trabalho (com o movimento
de terceirização, trabalho de autônomos
e outros).
Diante de toda essa mudança, verifica-se na atualidade
a necessidade de um novo gerente, de um novo supervisor,
que tenha um perfil bem diferente daquele de 25 anos
atrás.
A pessoa responsável pela produção:
nos anos 70, apenas o feitor
Há nada mais que 25 anos, a pessoa responsável
pela produção nas empresas (industriais,
mineradoras, serviços), cumpria apenas o papel
de feitor. Esse termo expressava bem o que se esperava
da média gerência: que cumprisse o cronograma
de produção. Naquela ocasião, os
que conseguiam cumprir recebiam prêmios e incentivos
e pouca atenção se dava a como o feitor
o fazia. Assim, era freqüente o desgaste do equipamento,
a produção sem se atentar para os cuidados
de qualidade e, especificamente no que tange ao ser
humano, era valorizado o supervisor que, no Estado de
Minas Gerais, era denominado "o rancão"
(aquele que "ranca" produção
de qualquer jeito).
O primeiro desafio: incorporar a mentalidade da qualidade
Lembro-me ainda bem da época das brigas antigas
entre o pessoal de produção e o de qualidade,
esses últimos querendo barrar os absurdos dos
primeiros, que só queriam soltar a produção
e a empurravam para os compradores.
O primeiro grande desafio foi transformar a mentalidade
do feitor, para que ele assimilasse a mentalidade de
ter que fazer qualidade na origem do processo. Essa
foi, sem dúvida, a primeira e grande mudança
da gerência e da supervisão.
A partir daí, ser gerente ou supervisor passou
a ter dois desafios: cumprir o cronograma de produção,
com qualidade.
O segundo desafio: a responsabilidade com o meio
ambiente
Na década de 80, era comum livrar-se do lixo
produzido pela fábrica jogando-o em terrenos
baldios e em cursos d'água. Volumes imensos de
terra estéril ainda podem ser encontrados em
grotões do interior dos diversos Estados e do
País, como lembrança da mineração
irresponsável. O rio próximo da empresa
tudo aceitava. A cinqüenta quilômetros de
distância sabíamos que estávamos
nos aproximando de uma fábrica de celulose.
Esses e outros tantos exemplos marcaram a época
em que produzia-se e não se tinha nenhuma responsabilidade
com as conseqüências sobre o meio ambiente.
Aos poucos, a sociedade começou a se movimentar,
os governos começaram a agir, pressionando as
empresas, e a mudança de mentalidade na linha
do desenvolvimento sustentado originou nas organizações
uma nova realidade: quem produz deve incorporar ao seu
papel o de zelar para que sua produção
seja limpa. Os sistemas de gerenciamento ambiental foram
muito claros: somente teremos ações consistentes
quando quem produz se preocupar com a relação
entre a sua produção e o meio ambiente.
E o perfil do gerente e do encarregado mudou de novo:
se antes era só produzir, agora era necessário
mais: produzir com qualidade e com respeito ao meio
ambiente. Possivelmente a esta altura já fosse
legítimo não mais chamar o encarregado
de produção de feitor e passar a chamá-lo
de supervisor.
O terceiro desafio: a responsabilidade para com a
segurança de seus subordinados
Não faz muito tempo, produzir era uma coisa,
segurança era outra. Do encarregado cobrava-se
a produção, cabendo a árdua tarefa
de zelar pela prevenção de acidentes aos
engenheiros e aos técnicos de segurança.
As brigas eram constantes e, na dúvida entre
produzir e ter-se o cuidado com a segurança,
certamente prevalecia a primeira. Da construção
civil havia essa pérola para ilustrar a dissociação
entre produção e segurança no trabalho:
"O maior inimigo do engenheiro de segurança
é o engenheiro de obra". E quando ocorriam
os acidentes? Era muito fácil, havia um caudatário
comum de todas as culpas: o ato inseguro do trabalhador.
A partir da década de 80 (um pouco antes em países
mais adiantados), um novo paradigma veio substituir
a supersimplificação do ato inseguro:
a verificação irrefutável de que
95% ou mais dos acidentes do trabalho poderiam ter sido
evitados se tivesse havido um gerenciamento mais competente.
Ou seja, com a demonstração de que a quase-totalidade
dos acidentes do trabalho era causada por algum tipo
de falha administrativa (e com a natural dedução
de que para prevenir acidentes é necessário
administrar melhor), passou-se a exigir ainda mais do
gerente e do supervisor: se antes ele era apenas o feitor,
agora passou a ser considerado um bom supervisor se
conseguisse também, ao lado de cumprir o cronograma
de produção, cumpri-lo preservando a qualidade,
o cuidado com o meio ambiente e responsabilizando-se
pela segurança de sua área de trabalho.
O próximo desafio: custo competitivo
Se até o final da década de 80 as empresas
pouco se importavam com custos, era porque a proteção
alfandegária garantida às empresas brasileiras
não possibilitava a livre concorrência.
Naquela ocasião, no Brasil, era dificílimo
comprar algum produto que não estivesse cartelizado,
ou com preço determinado por oligopólios.
Importação de algum produto, nem pensar.
E era nesse ambiente que proliferavam as perdas.
Havia perdas de produção, atrasos, retrabalhos,
perdas de material, especificação incorreta
de matéria prima, danos importantes ao equipamento,
tempos aumentados de manutenção, mentalidade
de que errar é humano e pouco disso sendo contabilizado.
Por quê? Porque repassava-se esse mau resultado
para o preço do produto. Ao consumidor só
cabiam duas alternativas: não comprar ou aceitar
os preços estabelecidos.
Com a abertura comercial brasileira, a partir de 1990,
isso mudou. Com a possibilidade atual de as empresas
conseguirem produtos, matérias primas e material
de qualquer parte do mundo, a preços competitivos,
delinearam-se novos desafios para a gerência e
supervisão: controlar custos, aprender a administrar
melhor de forma a eliminar o desperdício, assimilar
a filosofia de que acertar é humano e melhorar
a confiabilidade dos seus produtos no mercado.
E assim, o nosso gerente e nosso supervisor, passaram
a ter um novo desafio: se antes era necessário
apenas produzir, a partir do início dos anos
90 o desafio passou a ser produzir, com qualidade, preservando
o meio ambiente, cuidando da segurança de seus
trabalhadores e a um custo competitivo.
(É bem verdade que, infelizmente, ao lado de
grandes evoluções no controle de custos
de produção, também apareceram
algumas formas obsessivo-compulsivas, que pecam por
miopia, ou seja, por só verem a redução
momentânea de custos, sem perceberem as conseqüências
a longo prazo. Mas não iremos discutir esse tema
nesse texto.)
Quem trabalha para quem? Do supervisor ao facilitador
No início dos aos 90, o dinamarquês Jan
Carson publicou um livro denominado A Hora da Verdade
que revolucionou o mundo gerencial. Segundo aquele autor,
à época presidente da Scandinavian Airlines
e maestro de uma profunda mudança de qualidade
e de resultados naquela empresa, um dos pontos mais
importantes de se entender é o conceito de "hora
da verdade".
É o instante em que o comprador se defronta com
o desafio de acreditar ou não naquela empresa,
naquela marca. Quando um de nós viaja de avião,
quem detém a hora da verdade não é
o presidente da empresa, mas os mecânicos, os
comissários e os pilotos da aeronave e o pessoal
de atendimento ao passageiro; se eles falharem, tudo
irá por água abaixo. Quando um de nós
toma um veículo e vai fazer uma viagem, nossa
satisfação depende fundamentalmente de
quem? Dos gerentes e supervisores ou dos trabalhadores
que o montaram? E assim por diante.
Jan Carson demonstrou o quanto era impróprio
o raciocínio dos gerentes e dos supervisores
ao dizerem: "eu tenho n pessoas que trabalham para
mim." Segundo ele, o gerente e o supervisor é
que trabalham para aqueles que estão com a responsabilidade
"da hora da verdade", com a responsabilidade
de uma atitude que realmente se reflete em qualidade
do produto ou serviço. A partir dessa demonstração
quase contundente, nada mais tão anacrônico
quanto o termo supervisor.
E assim, nosso antigo feitor de 25 anos atrás,
que passou pela fase de ter que associar cumprimento
do cronograma de produção, com qualidade
assegurada por ele mesmo (e não por outros),
zelando pelo meio ambiente, responsabilizando-se pela
segurança de seus subordinados, assumindo o desafio
de produzir a um custo competitivo, passou a ter mais
um desafio: o de perceber que não é mais
o superior hierárquico de seus subordinados,
mas facilitador do trabalho dos mesmos.
E agora, mais um desafio para nossos gerentes e facilitadores:
a Ergonomia
Por último (por enquanto), os tempos atuais demonstraram
mais uma necessidade: a Ergonomia.
Por muitos anos, produziu-se gerando lesões músculo-ligamentares
nos trabalhadores. Mas o excesso de mão-de-obra
possibilitava que houvesse troca e se contratasse mão-de-obra
hígida. Isso acabou, com a estabilidade no emprego
estabelecida desde a lei 8213, de 1991. As empresas
não podem demitir pessoas lesionadas no trabalho.
Mas durante muito tempo trabalhou-se com quadros folgados
e assim, diante de transtorno ergonômico, colocava-se
aquela pessoa em serviços leves e ia-se levando
a produção.
Isso também acabou, com os quadros enxutos, exigidos
pelo desafio de custos. Durante muito tempo escolheu-se
os melhores fisicamente (e os mais jovens, dotados de
maior força muscular).
Isso vem sendo reduzido pela necessidade de se manter
as pessoas na empresa à medida que elas envelhecem
no trabalho. E durante muito tempo não havia
quem olhasse a empresa. Depois da Constituição
Federal de 1988, o Ministério Público
e as entidades de fiscalização do trabalho
passaram a assumir um papel preponderante na questão
não só dos acidentes do trabalho (que
já era uma preocupação mais antiga),
mas também, e principalmente, sobre a questão
ergonômica que, se não olhada, gera tanta
incapacidade para o trabalho e tanto (ou mais) prejuízo
social que os acidentes típicos.
E os processos de indenização pelo dano
grassando em todo o país sinalizam ainda mais:
ou investe-se em Ergonomia ou haverá profundas
repercussões sobre o custo, criando-se um passivo
trabalhista de difícil administração.
E assim, nosso antigo gerente (hoje denominado gestor)
e nosso antigo feitor (hoje denominado facilitador),
passaram a ter outro desafio: como se não bastasse
terem que cumprir o cronograma de produção,
com qualidade assegurada, respeitando o meio ambiente,
tomando as medidas para que seu pessoal trabalhe de
forma segura, com custos competitivos, tendo vivenciado
um dos mais profundos desapegos ao poder representado
pela assimilação do papel de facilitador,
têm agora um novo desafio: assimilar a necessidade
de produzir em boas condições ergonômicas.
Essa é a mentalidade das empresas que estão
fazendo os melhores trabalhos de Ergonomia no Brasil
(e no mundo): a mentalidade da prioridade com a Ergonomia.
Não que essa prioridade seja maior que outras
existentes na empresa, mas ela tem importância
igual a todas as outras anteriormente colocadas.
Mentalidade essa que vai ter que permear desde o principal
executivo daquela empresa até o trabalhador,
passando pelos gestores, facilitadores, engenheiros
e técnicos e que pode ser expressa assim: ao
ter que organizar o trabalho (comprar uma máquina
ou equipamento, pensar na manutenção daquela
máquina, comprar matéria prima ou material,
ao planejar a mão-de-obra para determinado trabalho
em número e qualificação), deve
a chefia - de qualquer nível - considerar as
condições em que a pessoa irá trabalhar,
de forma a não haver desgaste precoce, nem fadiga,
nem lesões de natureza ergonômica (lombalgias,
DORT/LER e outras).
É essa mentalidade que fará com que gestores,
projetistas e pessoal técnico avaliem as condições
de trabalho em projetos de novos postos e novas instalações
industriais, quando é a melhor oportunidade de
se colocar a Ergonomia.
É essa mentalidade (a ser passada em treinamentos
de conscientização) que fará também
com que o trabalhador tenha atitudes responsáveis,
seguras e ergonomicamente corretas. É essa mentalidade
que irá garantir que, diante de espasmos reducionistas
e de controle míope de custos, preserve-se a
condição ergonomicamente correta para
se executar o trabalho e não se mexa naquilo
que não se pode mexer.
E é essa mentalidade que, quando instituída
de forma sistematizada, através de um Processo
de Ergonomia (conscientização da alta
gerência, comitês de Ergonomia, ação
sistematizada sobre os principais problemas ergonômicos
conhecidos) irá fazer com que haja uma redução
sistemática, gradativa e consistente das lesões
induzidas pela falta de condição ergonômica.
E fará também com que o trabalhador execute
seu trabalho sem sofrimento, sem desconforto.
Assim, no momento presente das empresas, a instituição
da Ergonomia nas empresas tem sido alavancada por 6
grandes fatores:
1. Porque é eticamente correto - é a mentalidade
de empresas que preservam a filosofia do lucro acompanhado
de integridade, que preservam seu papel de agente de
um sistema social eficaz.
2. Quando o custo de não se fazer supera o custo
de se fazer - o aumento das despesas com indenização,
processos judiciais diversos, absenteísmo, acabam
empurrando a empresa para uma ação concreta.
3. Quando a empresa está muito pressionada, pela
Fiscalização do Trabalho, pelo Ministério
Público, pelos sindicatos e imprensa.
4. Pelo retorno do investimento - embora seja muito
difícil estabelecer uma relação
geral, mas é bem conhecido que grande parte dos
investimentos em Ergonomia têm um retorno em produtividade.
5. Pela necessidade de adensamento do trabalho - hoje,
cada vez mais, os trabalhadores estão tendo que
assumir mais e mais funções e esse adensamento
só é possível se houver uma melhoria
significativa nas condições de trabalho.
Caso contrário, o resultado previsível
é alto índice de fadiga, stress e distúrbios
osteomusculares relacionados com o trabalho.
6. Pela necessidade de versatilidade do trabalhador
- atualmente, o trabalhador útil para a empresa
é o trabalhador versátil. Mas como ter
versatilidade, como desenvolver e preservar o espírito
das células autogerenciáveis, se existirem
tarefas muito difíceis, que só podem ser
feitas por pessoas de alta capacidade muscular? Rodízio
e versatilidade só são possíveis
em condições ergonomicamente corretas.
Como se pode perceber, no momento atual das empresas
a Ergonomia deixou de ser um programa de qualidade de
vida do trabalhador, mas é muito mais: é
uma necessidade para a empresa competir nos tempos atuais.
Um alerta final: mentalidade positiva nenhuma é
suficiente. É absolutamente necessário
que haja também ações administrativas
sistemáticas na busca das soluções.
No Informativo 59 já descrevemos como implantar
a Ergonomia de forma eficiente.
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