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FÁBRICA NOVA + MANUFATURA + LINHA DE PRODUÇÃO
: QUASE IGUAL A ALTA INCIDÊNCIA DE LER/DORT
Hudson de Araújo Couto
Diz o dito popular que "o melhor carro do mundo
é o carro novo". Poderia ser o mesmo conceito
aplicado a empresas? Seria de se esperar que uma empresa
nova, com galpão recém-construído,
sem sobrecarga térmica, máquinas novas
e pessoal operacional também novo, fosse um padrão
de afinamento e resultado? Pelo menos no que se refere
às manufaturas, não é bem assim.
Manufaturas novas costumam ser sinônimos de problemas
diversos, inclusive de LER/DORT entre seus trabalhadores.
Tenho assistido, nos últimos tempos, muitas
empresas cuja história de alta incidência
de LER/DORT está diretamente relacionada ao projeto
novo. Duas delas fizeram parte de minha Tese de Doutorado,
na qual comparei a incidência de distúrbios
de membros superiores entre unidades distintas da mesma
empresa. Nos dois casos estudados, a alta ocorrência
foi na unidade mais nova, que, "a priori",
tinha tudo para dar certo.
Depois disso, diversas outras empresas têm mostrado
essa realidade: com a expansão recente do parque
industrial brasileiro, especialmente das manufaturas,
muitas empresas instalaram unidades novas; outras mudaram
suas unidades industriais para regiões virgens
de industrialização e o resultado é
o mesmo: daí a pouco tempo, alta incidência
de queixas de dores nos membros superiores.
Uma vez que a montagem de novas empresas em regiões
outras do Brasil fora de São Paulo ou mesmo a
transferência de empresas do Sudeste para outras
regiões do País tem sido uma constatação
muito forte, é bom que se tome as medidas preventivas.
Daí porque resolvi escrever este artigo, no qual
analiso os principais fatores envolvidos. O que escrevo
a seguir é resultado da vivência em profundidade
em 4 empresas novas de manufatura que tiveram alta incidência
de LER/DORT e de conhecimento, por informação
com colegas de trabalho, de três outras que viveram
essa realidade.
1. A base paradigmática para a análise:
o modelo de origem das LER/DORT
Com base no conhecimento mais recente sobre origem
dos distúrbios de membros superiores causados
por sobrecarga funcional (ver Informativo Ergo no. 64),
diante da constatação epidêmica
de LER/DORT devemos perguntar o que estaria ocorrendo,
entre um ou mais dos 6 fatores a seguir:
a) O trabalho envolve movimentos forçados para
os membros superiores, em alta freqüência
ou em alta intensidade (fator biomecânico)?
b) Está havendo alguma forma de sobrecarga sobre
o trabalhador ocasionado por tecnologia inadequada,
equipamento impróprio ou com defeito, problemas
com material ou matéria prima, problemas com
o método ou com a própria mão-de-obra
(fator organização do trabalho)?
c) Está havendo pressão excessiva sobre
os trabalhadores (fator estresse)?
d) Houve a quebra de alguma forma de regulação
da sobrecarga que os trabalhadores tinham (fator mecanismo
de regulação)?
e) Há indivíduos com maior predisposição
para as lesões (fator predisposição
pessoal)?
f) Está havendo episódio de frustração
de forma importante?
g) Está havendo potencialização
social das ocorrências (fator realidade social
para LER/DORT)?
1.1 O fator biomecânico
Constata-se, nos casos que tenho estudado, pouco cuidado
com as condições biomecânicas para
se executar a tarefa.
Em alguns casos, os projetos são feitos de forma
incompleta, não contemplando recursos de movimentação
de materiais ou outros meios de produção
mais dependentes de máquinas, sobrecarregando-se
o sistema músculo-esquelético do trabalhador.
O motivo mais freqüente é a contenção
de custos no projeto. Sob as mais diversas desculpas
possíveis, investe-se pouco, sobrando para o
ser humano tarefas muito difíceis, cuja solução
já é bem conhecida em nível mundial
e, às vezes, até mesmo naquela empresa
em outras unidades ou nas fábricas existentes
no país de origem.
Em outros casos, o processo operacional é altamente
dependente de movimentos das mãos, sem alternativas
mecânicas. Nesses casos, predominam os fatores
de organização do trabalho, como será
visto a seguir.
1.2 Os fatores de organização do trabalho
As empresas em geral estão enfrentando dificuldades
especiais relacionadas ao aumento enorme da competitividade:
(i) dificuldade de competir em mercados globalizados;
(ii) atendimento a encomendas não planejadas;
(iii) premência na redução de custos;
(iv) vencer o desafio da pontualidade e confiabilidade
nas entregas; (v) diversificar seu produto de forma
a atender às demandas do mercado, evitando perder
clientes pela falta de flexibilidade; (vi) superar os
problemas de atraso e parada no processo produtivo por
falta de material, por equipamentos defeituosos ou por
falta de gente; (vii) atender aos padrões mínimos
de qualidade do mercado (viii) aumentar a eficiência
de cada trabalhador.
Essas dificuldades são acentuadas nas empresas
de instalação recente, onde uma conjunção
perversa de fatores contribui ainda mais para a sobrecarga
para os trabalhadores. Com o desafio de conseguir resultados
rápidos e atingir o ponto de equilíbrio
do investimento rapidamente, uma série de disfunções
administrativas acaba acontecendo:
A primeira delas está relacionada aos cronogramas
irrealistas; fora da realidade sim, pois deixam de considerar
uma série de dificuldades que, sabidamente, existem
em projetos novos.
Paralelamente, existem os problemas próprios
da falta de domínio da tecnologia; com grande
freqüência, para os novos projetos são
enviados técnicos que não conhecem profundamente
a tecnologia envolvida e, assim, têm dificuldades
de resolver os problemas que são comuns em empresas
novas, especialmente aqueles relacionados à qualidade
do produto ou serviço.
Máquinas novas demoram um certo tempo até
funcionarem com perfeição. Esta realidade,
bem conhecida, costuma ser menosprezada. E o resultado
são os defeitos em máquinas, a falta de
confiabilidade com o equipamento, atrasando os planos
de produção irrealistas, já citados
anteriormente.
Não é fácil contar com material
e matéria prima corretos. Especialmente quando
a empresa começa a ter atividades em outra região,
há um intervalo de tempo natural para o desenvolvimento
de novos fornecedores (ou de fornecedores de confiança
da matriz que também montam outra empresa naquela
região). E, durante esse intervalo adaptativo,
ocorrem atrasos, ocorrem problemas dimensionais dos
componentes, ocorrem problemas relacionados à
qualidade, que se refletem em aumento de esforço
humano no trabalho.
Não é tão simples ensinar métodos
corretos a trabalhadores novos. Pode-se calcular que,
para uma performance adequada, um trabalhador demora
de 4 semanas a 5 meses para adquirir a habilidade manual
e o método perfeitos para o trabalho. E, muitas
vezes, o "estudo de viabilidade" do projeto,
feito às pressas sem uma contra-argumentação
lógica, não contempla esse tempo. O resultado
é a existência de trabalhadores com algum
preparo teórico sobre a operação,
mas sem o preparo gestual, sem saber sutilezas de como
fazer a operação manual, fazendo-a com
movimentos bruscos e forçados, comprometendo
ambos, os seus músculos e a qualidade do produto
que está fabricando.
E ainda, não é fácil afinar uma
equipe de trabalhadores. Ainda mais quando não
se tem treinadores adequados. E, ainda, quando existindo
treinadores, esses não têm um domínio
perfeito da situação. E ainda mais, quando
no "estudo de viabilidade" prevaleceu a irracionalidade
e o otimismo inconseqüentes, ao se prever que aquela
nova empresa irá trabalhar num ritmo mais alto
(incompatível com a experiência histórica
sobre o assunto).
A conseqüência é que o resultado
da empresa costuma não ser aquele programado.
Os cronogramas de produção não
são cumpridos e/ou a qualidade deixa a desejar.
O passo seguinte dessa falência de berço
no processo administrativo costuma ser a sopinha de
letras à qual me referi no Informativo Ergo no.
62: horas extras, dobras de turno, retrabalho, aumento
da velocidade da esteira, trabalhos aos sábados
domingos e feriados e impossibilidade de cumprimento
da pausa (fundamental nesses tipos de trabalho).
Fica caracterizado o pano de fundo para a ocorrência
do próximo grande fator:
1.3 Pressão exagerada sobre o pessoal
Pode-se prever a conseqüência da não
obtenção dos resultados: pressão
sobre as pessoas, pressão esta piramidal, desde
o acionista (que aprovou um projeto baseado numa projeção
de resultados que não está sendo cumprida)
até o trabalhador. Pressão que gera nos
gerentes os clássicos sintomas do estresse e
entre os trabalhadores operacionais, a alta propensão
aos fenômenos dolorosos nos membros superiores.
E o irônico desse processo de pressão
é que, parte-se do princípio que a mesma
fará os resultados aparecerem, mas eles só
se complicam. (É bem conhecido que o estado de
tensão excessiva piora o desempenho de todos
os movimentos de nosso corpo).
Em alguns casos, o processo de pressão exagerada
sobre os trabalhadores é conseqüência
da nomeação para os projetos novos de
gerentes obssessivo-compulsivos, especialmente aqueles
dotados do clássico estilo de vida A (descrito
por Friedman e Rosenman, em 1974 e por Couto, em 1987).
São gerentes obcecados pela pressa, por assumir
prazos muito apertados, sendo sua motivação
básica fazer, conseguir, realizar, cada vez mais
em cada vez menos tempo. Pode-se prever a conseqüência
em termos tensionais.
1.4 A quebra dos mecanismos de regulação
dos trabalhadores
Os mecanismos de regulação representam
as formas de alívio de tensão diante de
sobrecarga. Eles possibilitam que, em certas ocasiões,
mesmo diante de sobrecarga física ou tensional,
não haja lesão.
Nos projetos novos a que me refiro, esses mecanismos
de regulação costumam não existir:
a) Assim, é comum que essas unidades novas sejam
abertas em regiões sem experiência com
aquele tipo de serviço; todo o pessoal necessita
ser formado e, nessa situação, o grande
contingente é de trabalhadores novos; desde nossa
Tese de Doutorado (COUTO, 2000) ficou bem demonstrado
serem os trabalhadores novos bem mais propensos para
os distúrbios do que aqueles experientes;
b) Os supervisores também costumam ser novos;
recebem planos de trabalho prontos, definidos de cima
e não têm qualquer condição
técnica de argumentar quanto à possibilidade
de cumprimento dos mesmos; assim, são também
incapazes de amortecer as tensões inadequadas,
são incapazes de questionar quanto à condição
de cumprimento dos planos prescritivos e, com freqüência,
sofrem junto com o pessoal;
c) Especialmente naquelas que se instalam em regiões
de baixo índice de industrialização,
a vinda da empresa nova é encarada como uma benção,
como uma possibilidade de emprego e de melhoria de qualidade
de vida; os dois grandes atores sociais de regulação
(sindicato e fiscalização do trabalho)
ou não existem, ou são socialmente coagidos
a um papel de pouco questionamento das práticas
da empresa;
d) É também necessário destacar
que os projetos novos costumam trazer imbutidas algumas
tecnologias gerenciais que, nas matrizes, eram difíceis
de serem aplicadas, especialmente o Just-in-Time e o
downsizing. Prevendo uma administração
da produção sem estoques, vive a empresa
problemas importantes com fornecedores (conforme já
citado). Prevendo não ter na nova unidade os
excessos de pessoal existentes na matriz, o quadro de
pessoal é absolutamente enxuto. O resultado é
que trabalha-se no limite ou um pouco acima dele.
e) E também, por incrível que pareça,
é também na unidade nova que se faz uma
série de experimentos quanto à administração
de pessoal: ali testa-se ritmos mais forçados
(inclusive desconsiderando os padrões da matriz),
testa-se novas filosofias de gerenciamento, novas posturas
na relação capital-trabalho, muitas vezes
sob a motivação de se estar trabalhando
numa "área verde" e aproveitando as
vantagens dessa nova situação.
Gostaria, por fim, de destacar um aspecto muito importante
nas empresas que se instalam em áreas sem tradição
de industrialização e cuja organização
produtiva utiliza o princípio das linhas de montagem
(transportador da peça, trabalhador em posição
fixa, ritmo ditado pela máquina e pelo transportador
e produção de altos volumes) com seus
corolários: vigilância em cima do funcionamento
da linha, obsessão pela taxa de ocupação
das pessoas durante o ciclo, inaceitação
da parada do processo, tensão no controle do
resultado hora a hora ou minuto a minuto, não
poder sair da posição, manutenção
do ritmo, aumento da velocidade da esteira diante do
atraso: pessoas não acostumadas com esse tipo
de serviço passam por enormes dificuldades psíquicas
de se adaptarem a essa "saia justa".
1.5 A existência de predispostos
Essas empresas novas também se esquecem de algumas
práticas tradicionais de adequação
do ser humano ao trabalho. E, em nome da polivalência,
na seleção de pessoal, elas sequer consideram
dois fatores básicos, o de um mínimo de
força física para a realização
do trabalho e e o de um mínimo de adequação
antropométrica para a função.
Como conseqüência, é costume ver
nessas empresas pessoas fracas operando equipamentos
de grande exigência de força física,
pessoas baixas tendo que trabalhar com os braços
bem acima dos ombros (em posição em que
os altos poderiam fazer o trabalho sem maiores dificuldades)
e também o contrário, pessoas altas tendo
que trabalhar totalmente encurvadas.
Aqui cabe uma reflexão: Ergonomia é definida
como o conjunto de medidas que se adota para adaptar
o trabalho ao ser humano e, nesse sentido, a seleção
de pessoal com base em critérios físicos
é um anacronismo. Mas ela não pode ser
desconsiderada, uma vez que os projetos dessas empresas
desconsideram uma série de condições
materiais que facilitariam o trabalho, em nome do projeto
mais barato, conforme citado no item 1.1.
Também não se toma cuidados na seleção
considerando a aptidão psicomotora das pessoas.
O resultado é absolutamente previsível,
na dificuldade das pessoas em executarem o trabalho.
1.6 A questão da frustração
Em minha Tese de Doutorado, um dos fatores mais importantes
evidenciados na origem epidêmica de LER/DORT foi
a frustração. Aqui, nas fábricas
novas, ela costuma ser conseqüência de três
fatores:
a) A percepção da incapacidade de conseguir
os resultados propostos pela empresa - no início
de sua instituição, as fábricas
novas motivam muito seus empregados; quando se associa
ao projeto os itens citados até aqui, o resultado
comum é o repetitivo fracasso nos resultados,
gerando no pessoal o sentimento de frustração
individual e coletivo; tão mais acentuado quanto
mais os resultados reais se distanciam do proposto;
b) Essa frustração, de início individual,
pode se transformar em frustração coletiva;
c) Outra forma também importante a se destacar
é a frustração de pessoas de melhor
nível de escolaridade cuja única opção
acaba sendo trabalhar em linhas de montagem, onde os
problemas decorrentes da parcelarização
do trabalho já são conhecidos desde a
década de 50 ou mesmo antes.
1.7 A questão da potencialização
social do fenômeno LER/DORT
Por último, é importante destacar que
as empresas novas costumam não estar preparadas
para lidar com as queixas de dores nos membros superiores.
Freqüentemente os trabalhadores são afastados
e, visando cumprir os cronogramas de produção,
costuma não haver espaço, nem tempo, nem
disponibilidade da empresa para lidar com os queixosos,
para procurar fazer uma reintegração dos
mesmos. E o resultado costuma ser a exclusão
social, um grande contingente de trabalhadores afastados,
que psicologicamente influencia mais e mais sobre os
trabalhadores sadios (criando o medo coletivo da LER),
reforçando ainda mais os fatores tensionais.
A partir de determinado momento, a fiscalização
do trabalho e os sindicatos assumem o problema (também,
com freqüência, o Ministério Público
do Trabalho) e aí sim, a potencialização
social aumenta ainda mais.
Por incrível que pareça, nessas circunstâncias
uma retração no mercado consumidor do
produto daquela empresa costuma ser o tempo para a empresa
acertar as coisas internamente e, fazendo uma análise
dos erros cometidos à implantação
do projeto, retomar o processo produtivo de forma gradativa
e, daí em diante, sem problemas novos.
1.8 Resumo
Em resumo, a alta incidência de LER/DORT nas
empresas de manufatura recém-instaladas está
relacionado a um ou mais dos seguintes fatores (todos
eles causando sobrecarga ao sistema músculo-esquelético
do ser humano):
1- Estudo de viabilidade incorreto ou incorrendo em
sofisma, especialmente quanto ao prazo de equilíbrio
e início do retorno do investimento.
2- Projeto incompleto, que não considera as dificuldades
biomecânicas na realização do trabalho
(por pura ignorância ou para reduzir o custo do
mesmo).
3- Sub-avaliação da complexidade do processo
produtivo, especialmente dos detalhes de movimentos
humanos envolvidos nas tarefas.
4- Supervisão pouco experiente, especialmente
incapaz tecnicamente em lidar com as sutilezas das dificuldades.
5- Cronogramas apertados, especialmente os aumentos
muito rápidos da produção, desconsiderando
as dificuldades de matéria prima, com o fornecimento
e com a qualidade do material, com equipamentos e com
a dificuldade de dominar a tecnologia em sítios
onde a mesma é novidade.
6- Sub-avaliação do custo fixo, especialmente
no que se refere ao fator mão-de-obra; e super-avaliação
da capacidade de uma equipe nova gerar resultados muito
altos num curto intervalo de tempo.
7- Menosprezo à complexidade de um trabalho do
tipo "linha de produção" .
2. Recomendações preventivas
Essa explanação está dividida
em duas partes: (a) recomendações para
as empresas que estão com projetos novos; (b)
recomendações para aquelas empresas novas
que já estão vivenciando o problema da
alta incidência de LER/DORT.
2.1 Para empresas que estão com projetos
novos
O aspecto mais importante é a conscientização
da complexidade que envolve um projeto novo em manufatura,
especialmente se forem linhas de produção.
Henri Ford, o criador das mesmas, já conhecia
as dificuldades administrativas nelas envolvidas. Ao
longo de décadas, a Engenharia Industrial desenvolveu
uma série de ferramentas de análise do
trabalho e de seus fatores de dificuldade, de formas
de avaliar ritmo de trabalho e adequá-los sem
sobrecarga, de técnicas visando não permitir
faltar material nas linhas, etc...
Ainda mais, ao longo de décadas do sistema fordista
de produção, nunca se conseguiu uma resposta
eficiente para a questão da parcelarização
do trabalho e dos problemas que isso envolve; pode-se
mesmo dizer que um dos estágios superiores do
desenvolvimento de um engenheiro ou técnico em
função gerencial ocorre quando o mesmo
aprende a administrar bem uma linha de produção,
tal é a complexidade dos problemas que ela envolve.
Complexidade essa que tem um fator adicional: a necessidade
de se preparar psicologicamente os trabalhadores para
os aspectos de tensão que os mesmos viverão
na linha de produção e as formas de se
conseguir amenizar essas tensões. Assim, um dos
aspectos mais importantes do novo projeto é alocar
pessoas com alta experiência com a fabricação
daquele tipo de produto e com as dificuldades operacionais
nele envolvidas.
Ser realista quanto ao projeto é a segunda medida:
talvez a melhor alternativa para isso seria ter na equipe
de projetos uma pessoa com a visão completa do
processo e que pudesse exercer o papel dialético,
argumentando contra diante da tendência da equipe
de projetos de prever prazos apertados, de menosprezar
as dificuldades e de se esquecer dos meios auxiliares
na movimentação de peças e na execução
do trabalho que fazem parte da rotina de baratear o
projeto.
Recrutar e selecionar adequadamente os trabalhadores
- nesse caso, embora anacrônica, há que
se ter uma visão clara quanto à necessidade
de se aplicar critérios validados de adequação
das pessoas aos postos de trabalho como: análise
de robustez para trabalhos pesados, análise antropométrica
para posições extremas e medida de aptidão
psicomotora em tarefas que envolvem alta repetitividade
de movimentos finos; também importante é
obter uma adequação entre a expectativa
do futuro trabalhador e a possibilidade real de o trabalho
atender às mesmas.
Pensar, desde o início, em alternativas para
as posições de trabalho ergonomicamente
mais exigentes - nesse caso, o ideal é que no
projeto já se identifique as futuras situações
críticas (recentemente, numa das empresas em
que dou assessoria, o gerente geral encomendou ao Comitê
de Ergonomia uma relação dos pontos problemáticos
sob esse aspecto na fábrica atual para que a
equipe de projetos encarregada da expansão não
os repetisse na nova fábrica). Caso esses cuidados
não tenham sido tomados, iniciar desde cedo com
o projeto de melhorias ergonômicas e garantir
rodízio dos trabalhadores. Atentar-se também
que a taxa de engajamento do trabalhador em posições
biomecanicamente mais difíceis tem que ser menor
do que nas situações sem risco ergonômico.
2.2 Para empresas que já estejam tendo uma
alta incidência de LER/DORT
Nesse caso, as medidas devem se centrar em 8 núcleos
principais:
1- Instituição de um Processo de Ergonomia
bastante eficaz, no qual se garanta um compromisso
da alta gerência e da direção com
a solução dos problemas ergonômicos.
As bases de um processo eficaz de ergonomia foram apontadas
no Informativo Ergo 59.
2- Medidas de Organização do Trabalho,
visando basicamente identificar em que aspectos os 7
componentes da racionalidade operatória (tecnologia,
maquinário, matéria prima, material, método,
meio ambiente e mão-de-obra) não estão
compatíveis com a quantidade de trabalho e os
que se espera da empresa.
3 -Reversão da Sobrecarga, através
da melhoria das condições para se conseguir
os objetivos prescritos; ou revisão dos objetivos,
de forma que sejam mais compatíveis com a capacidade
da empresa de atingi-los. Cabe destacar, em especial:
eliminar a pressão desarrazoável sobre
os trabalhadores visando o resultados e transformá-la
em análise crítica e plano de ação
para que os resultados aconteçam (Núcleo
2).
4- Processo de Melhoria da Percepção
de Obtenção dos Resultados- O resultado
desse núcleo de medidas pode ser uma conseqüência
da adoção das medidas do Núcleo
2 (Organização do Trabalho). Mas aqui
importa que seja destacado enquanto um item isolado,
pois ele tem um componente bastante forte de eliminação
da frustração. Explicando melhor: quando
num grupo percebe-se a incapacidade constante de obtenção
de resultado, cada vez mais reforça-se no mesmo
o sentimento de frustração. O contrário
é também verdadeiro: a obtenção
dos resultados propostos melhora mais e mais o sentido
de eficiência no trabalho, evitando a fadiga psíquica
e a conseqüente frustração. Assim,
trata-se de um conjunto de medidas que visa mostrar
os resultados alcançados, as metas atingidas,
a possibilidade de cumprimento. Num primeiro momento
pode ser necessário redimensionar os objetivos
e torná-los compatíveis com a real condição
de obtenção dos mesmos, conforme preconizado
no Núcleo 2.
5- Medidas visando adequação da mão-de-obra
a ser contratada - deve-se destacar, especialmente,
o preparo cuidadoso dos trabalhadores para exercerem
a função onde se exige movimentos de alta
repetitividade e de boa coordenação muscular.
6- Medidas visando reverter a pressão psicológica-
Desenvolver o hábito saudável da racionalidade
ao abordar planos de metas. Também é importante
desestimular as práticas de correria, de aumento
da velocidade dos processos. Estimular, ao contrário,
as práticas de melhoria dos métodos. Não
deixar que técnicas de avaliação
de trabalho, quaisquer que sejam suas origens, sejam
aplicadas sem uma avaliação crítica
de sua racionalidade.
Associado a essas medidas, deve-se atualizar as condutas
médico-administrativas diante de queixas, de
forma a se garantir que o problema ergonômico
do trabalhador seja resolvido rapidamente, e de forma
a não se afastar o trabalhador da empresa, ou
afastá-lo o menor tempo possível.
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