ACIDENTES POR MÁS CONDIÇÕES ERGONÔMICAS – Parte 3: Piso Inimigo

Um novo olhar na Prevenção de Acidentes:
ACIDENTES POR MÁS CONDIÇÕES ERGONÔMICAS – Parte 3: Piso InimigoACIDENTES POR MÁS CONDIÇÕES ERGONÔMICAS – Parte 3: Piso Inimigo

Diga-me onde pisas e eu te direi se irás ter um grande problema nos tornozelos, nos joelhos e mesmo lesões em todo o corpo

O ser humano tem um diferencial competitivo extraordinário na natureza: é bípede. O fato de andar sobre dois pés e ter as mãos liberadas para o trabalho, no entanto, nos torna extremamente vulneráveis às condições do piso. A projeção do corpo com a queda costuma ser amparada, por via reflexa, pelos braços e mãos. Assim, os acidentes devido às más condições de piso costumam ser muito graves, pois podem atingir todo o corpo.

Uma das características mais marcantes de países socialmente desenvolvidos é a qualidade dos passeios nas cidades: lisos, muitas vezes feios (por não conterem cerâmicas decorativas), porém seguros. Em nossa pesquisa recente, essa foi uma das causas mais importantes de condição antiergonômica levando a acidentes do trabalho. Neste artigo, iremos explorar alguns dos exemplos mais comuns de piso inimigo e, ao final, compartilhar exemplos reais de acidentes de trabalho em empresas e como evitá-los .

O fator mais presente é o buraco camuflado, que pode estar nessa condição por acúmulo de vegetação, como no trabalho florestal, por acúmulo de água tendo o trabalhador que percorrer aquele trajeto, ou por grade mal colocada. Esse último fator costuma ser causador de acidentes graves, uma vez que os buracos cobertos pela grade costumam ser muito profundos.

Em segundo lugar encontramos o piso desnivelado. Uma parte de nosso sistema nervoso central, denominada cerebelo, adquire um padrão definido para os esforços que deve colocar nos músculos das pernas em nossa caminhada. Isso é feito de forma automática e, ao andarmos ou subirmos uma escada, a amplitude de nossos passos é exatamente a necessária para que o corpo ande normalmente. O piso desnivelado significa uma espécie de armadilha para o nosso cerebelo, ao enganá-lo, pois não possui o padrão já assimilado por essa parte do nosso corpo. Causam acidentes tanto os desnivelamentos para cima (no qual tropeçamos), quanto os desnivelamentos para baixo (diante do qual nos desequilibramos e nos projetamos para frente).

Em terceiro lugar em nossa pesquisa aparecem os objetos e outras interferências no piso. Esse fator costuma estar relacionado às más condições de higiene e limpeza e ao mau cuidado com a rotina da área de trabalho.

A deterioração das condições do piso aparece em quarto lugar na frequência dos acidentes por nós analisados. Aqui existe uma falha no gerenciamento da rotina. Claramente falando: pisos se deterioram com o tempo, especialmente quando sobre eles existe trânsito de empilhadeiras e outros equipamentos móveis. A falta de previsão de verbas de manutenção é o fator mais preponderante na origem dessa questão.

Por fim, encontramos como muito importante na origem de acidentes relacionados ao piso inadequado a existência de óleo, carepa e outros fatores que tiram a segurança do piso. De novo, encontramos aqui fatores relacionados ao baixo cuidado na manutenção da higiene da área.

ACIDENTES DE TRABALHO REAIS DEVIDO AO PISO INIMIGO

Em nosso mais recente livro, apresentamos 14 descrições de acidentes de trabalho devido ao piso inimigo, muitos ilustrados. Alguns deles estão aqui compartilhados:

Caso 1: Quando caminhava pelo prédio administrativo, o trabalhador sofreu queda de mesmo nível, que causou escoriação superficial no joelho esquerdo. O piso estava irregular devido à depressão formada na junção da caixa de passagem da fiação.

Caso 2: Estava a caminho da prensa de rejeito para limpeza do cabeçote, quando a grade do piso cedeu, ocasionando a sua queda de uma altura de aproximadamente 1,20 metro. Sofreu escoriações e hematomas. A verificação das condições do piso nessa área não era colocada como prioritária no sistema de inspeção da empresa.

Caso 3: O trabalhador rural executava atividade de roçada manual com foice, durante o deslocamento no talhão caiu com a perna direita em um buraco camuflado com resíduos, projetando todo o corpo à frente causando a fratura da fíbula (joelho). O buraco tinha, aproximadamente, 60 cm de profundidade.

Caso 4: O empregado caminhava pelo galpão quando tropeçou em um encanamento e para não cair, tentou segurar-se em um batente, o que causou em provável estiramento no ombro esquerdo. Era um encanamento grande (160 mm) que passava no meio do posto de trabalho do empregado. (interferia mais no acesso/saída do posto desse empregado específico). Foi resolvido construindo-se uma escada por cima dele.

Caso 5: Funcionário realizava inspeção periódica e para isso caminhava próximo ao laminador. Nesse dia, havia um vão no piso cheio de água de resfriamento do processo, o que fez com que o empregado não percebesse que se tratava de um buraco (30 a 40 cm de profundidade), e imaginando que fazia parte do piso, pisou e caiu, não ocorrendo ferimentos muito graves.

Caso 6: Durante a concretagem dos trilhos da linha de cestão o acidentado tropeçou nas ferragens vindo a cair.

PREVENÇÃO

No dia a dia, é fundamental que aconteçam atividades de inspeção, “housekeeping”, secagem da água e limpeza de qualquer lama, óleo, neve, gordura, materiais soltos e resíduos no piso. Assim evita-se a deterioração das condições da área. Durante atividade de limpeza do piso com água e detergente, devem-se colocar placas de sinalização, alertando para o risco de escorregamentos. Procedimentos como limpar metade de um corredor de cada vez ajudam, para evitar que as pessoas caminhem por área molhada.

Quando é necessário que as pessoas se movimentem para cima e para baixo entre dois níveis diferentes, é importante providenciar corrimãos para que elas possam utilizar a regra dos três pontos de apoio. Não esquecer que deve existir espaço suficiente atrás dos corrimãos para comportar dedos com luvas em posição de segurar.

Uma consideração importante em corrimãos, especialmente os que se estendem por longas escadas ou rampas, é adicionar um indicador tátil ao final, pois essa mudança na textura ou na forma alertará o trabalhador que ele chegou ao fim do corrimão. Um formato de “botão” também ajudará a prevenir que as mãos escorreguem ao final.

Na fase do projeto, os engenheiros devem buscar sempre eliminar as mudanças de elevação, especialmente as pequenas e incomuns, pois as pessoas nem sempre veem uma mudança de um ou dois degraus na elevação ao olhar para frente. A interseção entre pisos diferentes, como carpetes e revestimentos, deve ser nivelada.

Em áreas onde já existem diferenças no nível do piso e não for possível mais realizar alterações, é fundamental então que essas diferenças sejam sinalizadas com contraste de cores entre diferentes níveis do piso, além de placas e sinais de aviso na área. Algumas medidas importantes podem ser vistas nas fotos abaixo:



4 Comentários

  • Álvaro Wendel

    Primeiro quero parabenizar ao senhor e sua equipe pelo artigo que está excelente.

    Segundo destacar que um piso inseguro associado ao fato de que ao caminhar as pessoas nem sempre estão 100% atentas a toda extensão do caminho (obstáculos, diferença de níveis, umidade, trânsito e etc.) e no ambiente no ambiente de trabalho em quanto caminham os trabalhadores vão pessando em outras coisas relacionadas ou não com o trabalho, isto aumenta a possibilidade de acidentes.

    Em alguns acidentes de trabalho que já análisei percebi também que quando um caminho é rotineiro e repetidamente feito feito ao longo da jornada pequenas alterações como uma pegada d’água pode vir a ser causa de um grave acidente se por ventura o acidentado estiver carregando material. Estas micro alterações não são percebidas, uma vez que aquele caminho é feito e refeito vários vezes e o “sensor de alerta” entra em num modo “off”.

  • Silvio

    Obrigado pelo envio da matéria, ótima
    abs

  • Acho muito interessante ! E quero adquirir este produto.

  • José Ricardo de Siqueira

    Parece tão óbvio mas na prática estes acidentes são muito comuns. Pena que a prevenção no Brasil ainda não faz parte do lucro das empresas.

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