BRUMADINHO: A FALTA QUE FAZ A LETRA “G”

HUDSON DE ARAÚJO COUTO

Ainda sob o impacto emocional da tragédia de Brumadinho, em que a lama de uma barragem de mineradora de ferro arrastou para a morte não se sabe quantas pessoas, incluindo a médica do trabalho, o fonoaudiólogo, a técnica de enfermagem e outros tantos do corpo técnico da mina, incluindo o gerente e engenheiros que estavam em reunião, escrevo este texto para reforçar um ponto fundamental da prevenção de acidentes.

Antes de mais nada, é importante destacar dois pontos: (a) acidentes não são eventos inesperados; eles são previsíveis, na quase totalidade das vezes, só não são programados, isto é, não sabemos o dia em que ocorrerão; (b) fatalidades não existem; esse termo costuma ser o ponto de transferência de responsabilidade quando as ações de prevenção falham.

Então, o que seriam as ações de prevenção eficazes?

Debruçando sobre o tema, com a experiência de consultoria em dezenas de empresas no Brasil, inclusive mineração, em 2006 enunciei um modelo que continua sendo muito atual, no qual fica evidente que prevenir acidentes não é fácil, que não pode ser centrado em apenas uma medida; esse modelo destaca que, para a prevenção eficaz, são necessários 10 pilares, que mnemonicamente podem ser guardados pelas letras primeiras do nosso alfabeto: A, A, B, C, D, E, F, G, H e I.

O primeiro pilar é ADMINISTRAÇÃO. Não há mágica possível; somente quando a administração de um setor produtivo está adequada é que se consegue boa prevenção; o contrário também é previsível: áreas mal administradas têm alto índice de acidentes do trabalho.

O segundo pilar é ANÁLISE DE RISCO. Aqui, existem muitas técnicas disponíveis, mas cabe destacar que analisar riscos é a junção de diferentes técnicas com crença nessa medida, e que é necessário que os gestores tenham essa crença como valor.

O terceiro pilar é BARREIRAS. Existem barreiras mais eficientes, geralmente medidas de engenharia, que são denominadas barreiras duras; mas boa parte das barreiras são brandas, representadas por normas e procedimentos de trabalho; e nem por isso são menos eficientes, conforme demonstram os procedimentos de segurança em voos.

O quarto pilar é CULTURA DO COMPORTAMENTO SEGURO, no qual nós, no Brasil, deixamos muito a desejar quando nos comparamos com outros países. Não é exagero dizermos que, quanto a esse item, somos um país com um número anormalmente alto de semisselvagens.

O quinto pilar é DISCIPLINA. Aqui, um dos pontos mais importantes é não haver permissividade. A máxima enunciada na época da Guerra Fria continua sendo muito atual: “Nos Estados Unidos, tudo é permitido, menos o que é proibido; no Brasil, tudo é permitido, especialmente o que é proibido!” Uma lástima.

O sexto pilar é ENGENHARIA e ERGONOMIA. Técnicas mais modernas de engenharia afastam o corpo do trabalhador das fontes de risco. Ergonomia cria melhores condições de trabalho, possibilitando o uso adequado do corpo do trabalhador, com menor possibilidade de acidentes.

O sétimo pilar é FISCALIZAÇÃO. Há necessidade de acompanhar o estado dos meios de produção, pois eles se degradam pelo próprio uso, mesmo que correto. E essa fiscalização pode ser interna, de pessoal da própria empresa, mas também deve ser das autoridades do trabalho e do meio ambiente. Também é necessário fiscalizar a forma pela qual as pessoas estão trabalhando, compatível com os pilares A e D.

O oitavo pilar é GERENCIAMENTO DOS PERIGOS, para que não se tornem riscos. Numa comparação muito feliz, um tigre é um perigo, mas não se constitui em risco se estiver dentro da jaula. Todos os processos produtivos contêm perigos, em maior ou menor intensidade. O gerenciamento existe para garantir que os perigos não se tornem riscos. É por meio do gerenciamento dos perigos que viajamos de avião, com um grau de quase totalidade de certeza que chegaremos ao nosso destino.

O nono pilar é HIERARQUIA. Numa visão surrealista, a base da pirâmide é o seu ápice. A alta gerência e diretoria operacional de uma empresa “têm” que querer segurança dos processos. Quando isso acontece, como valor, todo o trabalho fica facilitado, podendo se chegar ao décimo pilar.

O décimo pilar é INTERDEPENDÊNCIA. Não adianta apenas a alta gerência da empresa querer a prevenção. Os gerentes e a média gerência (facilitadores e supervisores) também necessitam estar engajados, assim como o pessoal de nível operacional.

Feita a explanação sobre os dez pilares, cabe a pergunta: Têm evoluído as empresas brasileiras em prevenção de acidentes? Sem dúvida, mas destaco, neste artigo, a grande frustração em relação à letra G (Gerenciamento dos Perigos).

Em termos práticos, o leitor tem que entender que não há mágica para se fazer isso. O melhor exemplo é obtido na aviação civil, onde, por condição do negócio, de estar a aeronave com passageiros fora da superfície da terra, tem-se que assimilar que, se alguma falha no gerenciamento ocorrer, o acidente e a tragédia são quase certos.

Nas empresas brasileiras, com raríssimas exceções, finge-se que os perigos são gerenciados. Essa responsabilidade costuma ser passada aos sofridos e batalhadores engenheiros de segurança e técnicos de segurança, não se constituindo em assunto da pauta periódica da diretoria de operações, que costuma estar preocupada com temas “mais relevantes”. Até que acontece a tragédia, quando passa a existir a cultura reativa (correr atrás do prejuízo).

O gerenciamento dos perigos deve ser uma prática de rotina. Sugerimos: um seminário a cada 3 meses, fora da empresa e interrupções proibidas, com duração de um a dois dias, conforme o porte da empresa. Presenças obrigatórias: diretor de operações, nível acima dele, nível gerencial principal (produção, manutenção, utilidades), engenheiro de segurança, engenheiro ambiental, recursos humanos, jurídico, médico do trabalho e eventual consultoria. Um título interessante para esse evento seria: WORKSHOP TIGRES NAS JAULAS.

A dinâmica desse seminário seria: revisão criteriosa de todos os perigos conhecidos naquele processo produtivo e eventualmente alguns perigos novos, com visão dialética em cada tópico; cabe, nesse modelo, ao engenheiro de segurança, ao engenheiro de meio ambiente e ao médico do trabalho tentar demonstrar que os perigos estão fora de controle. Depois de discutido o real grau de controle sobre cada perigo, elabora-se plano de ação, definindo o responsável para cada medida e prazos, com definição de recursos para controle do perigo. Ao final do workshop, gerente operacional e demais gerentes devem ter a certeza de que as barreiras colocadas são compatíveis com a melhor prevenção existente, ao ponto de poderem concordar que um membro de sua família pode trabalhar naquelas condições.

Impossível? Fora da realidade? De forma alguma. Mas, quando falo sobre esse projeto para diretores (diretores!!!) executivos de empresas, eles “enrolam”, alegam falta de tempo e não cumprem, sinalizando assim a falta de comprometimento.

E assim, pela falta da letra G, tragédias continuam acontecendo. E nessas horas os diretores acham o tempo para tentar correr atrás do prejuízo!

[Foto REUTERS/Washington Alves]


23 Comentários

  • Andrea

    Diretores correrão atrás do prejuízo, mas não conseguirão recuperar as vidas perdidas e os traumas psicológicos …
    Uma verdadeira tragédia criminosa já anunciada!

  • Muito precisa as observações…
    Grosseiramente avaliando as instalações de BRUMADINHO e constatando que todo o centro administrativo, inclusive o refeitório, estavam na base da barragem é perceber que, embora VALE, ausência da letra “G” foi básica e responsável por tamanha (E, PASMEM, REPETIDA TRAGÉDIA).
    Inadmissível permitir um processo de mineração tão rudimentar e perigoso, deixando para as futuras gerações uma herança de risco eterno.

    Marcos Marçal

  • Sérgio Alves Pedroza

    Bom dia. É lamentável esse tipo de tragédia ainda acontece em nosso país. Sou um profissional da área de Segurança do Trabalho e fico indignado com falta de respeito com a segurança nas empresas. Onde o descumprimento e a falta de comprometimento das pessoas com as normas e as leis. Essa impunidade com os responsáveis dentro das empresas, vemos aí o acontecimento em Mariana e o descaso e a flexibilidade das autoridades a respeito dos fatos. Precisa-se dá um basta.

  • Sérgio Alves Pedroza

    Bom dia. É lamentável esse tipo de tragédia ainda acontece em nosso país. Sou um profissional da área de Segurança do Trabalho e fico indignado com falta de respeito com a segurança nas empresas. Onde o descumprimento e a falta de comprometimento das pessoas com as normas e as leis. Essa impunidade com os responsáveis dentro das empresas, vemos aí o acontecimento em Mariana e o descaso e a flexibilidade das autoridades a respeito dos fatos. Precisa-se dá um basta.

  • Sérgio Alves Pedroza

    Bom dia. É lamentável esse tipo de tragédia ainda acontece em nosso país. Sou um profissional da área de Segurança do Trabalho e fico indignado com falta de respeito com a segurança nas empresas. Onde o descumprimento e a falta de comprometimento das pessoas com as normas e as leis. Essa impunidade com os responsáveis dentro das empresas, vemos aí o acontecimento em Mariana e o descaso e a flexibilidade das autoridades a respeito dos fatos. Precisa-se dá um basta.
    Após os fatos acontecerem é que querem resolver ou tomar uma atitude. Leite derramado não volta a vasilha.

  • Raimundo

    Muito bom e didático e me faz sugerir que é na letra G que poderemos abordar os incidentes – a base da pirâmide, enquanto outros ainda olham somente para o seu ápice!

  • Foi muito bem no texto,só discordo da palavra tragédia que para mim refere-se a furacão, terremotos, tsunames, etc ou seja algo que o homem não consegue controlar, o que houve em Brumadinho é no mínimo crime que em países sérios uma hora destas o Presidente da empresa já estaria preso, por ter comprado laudos de conformidade da segurança das barragens, em suma foi uma execução em massa e mais um dano ambiental irreversível pelo menos a médio prazo.

  • Thebes

    Perfeito! Parabéns pelos comentários!

  • JOEL ANCELMO GIUBERTI

    Penso que a vida está ficando muito vulgar e barata para tantos descasos. Temos que mudar nossa consciência do que é importante e vital para para apresentar ao mundo do trabalho.
    É muito pouco divulgado em mídias televisionadas programas que buscam denunciar esses grandes riscos, e que fatalmente se transformam em perigos ceifando vidas inocentes e acabando com a beleza do meio ambiente saudável.

  • Fabiola Lucchesi

    Excelente texto !!

  • Walquiria

    E assim VAMOS lutando a cada dia, insistindo no Qto precisamos, necesssitamos que a SAUDE DO TRABALHADOR TENHA PRIORIDADE E DESTAQUE nas agendas dos empresarios e governantes do nosso PAIS

  • Walquiria

    E assim VAMOS lutando a cada dia, insistindo no Qto precisamos, necesssitamos que a SAUDE DO TRABALHADOR TENHA PRIORIDADE E DESTAQUE nas agendas dos empresarios e governantes do nosso PAIS

  • Sérgio Maranhão

    Bom dia prof.Hudson,
    Excelente texto , muito atual e provocante.
    Sou médico do trabalho e sei como é difícil a “prevenção” nos ambientes corporativos.
    Parabéns !

  • Fábio Celso de Araujo

    Parabéns pelo texto.

  • JARA Lucia dias Costa cardoso

    Ótimo artigo ,porém a política do nosso país contribui enormemente para esses desastres ecológicos ,todos engajados nas propinas esquecem das responsabilidades e do amor ao próximo ,porque não estão preocupados em serem bons trabalhadores e sim em obter algo maior no trabalho :dinheiro .
    Ergonomia ? Q isso ?Nao preocupam porque nossa cultura é outra.

  • Claudia Franco

    Dr. Hudson

    Parabéns por sua bela explanação, concordo plenamente, nunca há tempo para Segurança.

    Abraços

  • Edmilson Cândido de Oliveira

    São questões como essa apresentada pela falta da letra G ao cotidiano laborativa que nós, profissionais em SSTMA devemos efetuar bons estudos de caso, analisar e estudar cada caso com muita atenção, elaborarmos programas (documentos) minuciosos, e praticarmos ações voltadas a mitigação / neutralização dos riscos existentes. Só assim vamos nos sobressair das ocorrências indesejáveis. Parabéns pela matéria. Abraços, Edmilson.

  • Carolina Mundim Couto Magalhães

    Excelente artigo, tio Hudson! Parabéns!

  • LEILA GONÇALVES SOUTO LEAL _

    Boa tarde. Achei simplesmente excelente esse artigo. Podemos perceber que tudo o que foi relatado no artigo é o que acontece na realidade. A falta de gestão dos perigos existe pela falta de comprometimento com a vida dos trabalhadores e a ganancia por processos produtivos mais baratos e que geram mais lucros. Infelizmente enquanto as pessoas não se conscientizarem que a vida vale mais que o dinheiro ainda teremos tragédias assustadoras como essa. Obrigada pelo artigo.

  • Emilia Leite Gomes

    Perfeito !
    Reflete o que realmente acontece com esta cultura de ” deixar sempre para depois”….por parte dos gestores.

  • Rosana Castro

    Os pilares são de extrema importância para a prevenção ser eficaz.

  • Parabéns, pelo Artigo “A falta que faz a letra G”, caríssimo amigo e referência profissional, no País, na Gestão dos Perigos e, consequentemente, na Prevenção de Riscos no Mundo da Saúde Ocupacional.

    Fraterno abraço, Glauco.

  • CARLICE SOUZA

    Dr Hudson, concordo em tudo. A discussão deve ser elevada às hierarquias das empresas, quiçá até ao governo federal.

    Neste momento, pós queda da barragem da Vale, preocupo-me com o abandono que está por vir daquelas vítimas, depois que a mídia deixar de noticiar. O que fazer para prevenir uma depressão em massa?

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Informativo ERGO

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