Um novo olhar na Prevenção de Acidentes: Acidentes por más condições Ergonômicas

Prevenir acidentes é fácil? Quem acha que sim está tendo uma posição bastante ingênua sobre o tamanho do desafio.

Costumo dizer, em minhas palestras, que existem 10 pilares para a boa prática da prevenção de acidentes, que podem ser facilmente memorizados lembrando as primeiras letras do alfabeto: A, A, B, C, D, E, F, G, H e I. Traduzindo: para uma boa prevenção de acidentes é necessário: Administração, Análise de Risco, Barreiras, Cultura do Comportamento Seguro, Disciplina, Engenharia e Ergonomia, Fiscalização, Gestão dos Perigos (para que não se tornem riscos), Hierarquia e Interdependência.

Neste artigo (e nos próximos 4 artigos) falarei de um tema muito atual: o impacto do fator má condição ergonômica na origem dos acidentes. Esse é um estudo ao qual tenho me dedicado nos últimos dois anos (com ajuda dos meus alunos do Curso de Formação de Consultores em Ergonomia), e que se transformou no nosso último livro: Um Novo Olhar na Prevenção de Acidentes de Trabalho: o Fator Ergonomia.

Juntamente com nossos alunos, temos refeito a análise dos acidentes que ocorrem nas respectivas empresas buscando os acidentes do trabalho em que o fator “má condição ergonômica” foi considerado como muito importante na origem do acidente. Nessa metodologia, todos os acidentes são revistos com o olhar da ergonomia, e, diante do ato inseguro ou ato inadequado do trabalhador, é feita a pergunta fundamental: o trabalhador que cometeu o ato inadequado tinha outra condição para executar a atividade que não aquela? Caso tivesse outra opção, o acidente não é considerado como decorrente da condição ergonômica. Caso não tivesse outra opção, a condição ergonômica inadequada é considerada como muito significativa na origem daquele acidente.

O resultado impressiona: refizemos a análise de 983 acidentes ocorridos em 15 empresas e o fator má condição ergonômica foi considerado como muito significativo em nada menos que 41% dos eventos. Dito de outra forma: se uma empresa tem um programa de prevenção de acidentes, mas não tem ações sobre as condições ergonômicas (a forma como os trabalhadores têm que executar as atividades), podemos afirmar que esse sistema de gestão da segurança tem um furo de nada menos que 41%, e os acidentes continuarão a ocorrer, mesmo com todo processo de conscientização para comportamento seguro.

Os grandes vilões

Todos os acidentes em que a má condição ergonômica foi considerada como muito significativa foram analisados em detalhe, colocando-os em uma chave de classificação que tinha os seguintes títulos: layout inadequado, ferramenta imprópria ou inexistente, meios inadequados de movimentação de materiais, posição forçada do corpo para fazer o trabalho, plataforma inadequada ou inexistente, piso inadequado, esforços intensos, sobrecarga ligada à tarefa, sobrecarga ligada à jornada, altura excessiva ou muito baixa, equipamento ou máquina inadequado para a tarefa, visão comprometida, situação que predispõe a deslize, ambiente inóspito, sistemas de controle, interfaces e aplicativos que induzem ao erro e padrão de trabalho inadequado (porque não contempla o aspecto ergonomia).

Os maiores vilões foram o piso inadequado, o padrão de trabalho que não contempla a ergonomia, ferramenta imprópria ou inexistente e a posição forçada do corpo ao realizar o trabalho, predispondo para o acidente.

Assim, ao ter que trabalhar em piso inadequado, o trabalhador sofre entorses no tornozelo, tropeça e cai; a inexistência de visão de ergonomia entre os planejadores do trabalho faz com que existam padrões operacionais que desconhecem totalmente a questão ergonômica envolvida e há, até mesmo, casos em que estão escritas no procedimento operacional orientações de trabalho totalmente antiergonômicas. A ferramenta imprópria é uma das maiores causas de acidentes graves, e nesse caso destacamos a famigerada marreta, que gera o desprendimento de fagulhas e o arremesso de partes de peças (conhecidas como “besouros”), algumas das quais saem com a velocidade e o poder destruidor de um projétil. E as posições forçadas do corpo fazem com que o trabalhador tenha que fazer esforços em que, facilmente, ocorre perda do equilíbrio com acidentes muitas vezes graves.

Um novo olhar

O conceito passado nesse artigo representa um novo olhar na investigação da origem dos acidentes. Tivemos oportunidade de analisar em campo algumas situações em que os investigadores tinham muito claro que as causas raízes eram falha na identificação e avaliação dos riscos, falta de uso de ferramental apropriado e descumprimento de procedimento. Porém, depois de irem à área e enxergarem as condições reais em que o trabalhador tinha que executar a atividade, não tiveram dúvidas em mudar o parecer: a condição de trabalho tinha que ser melhorada.

No próximo artigo:

Ferramentas Inadequadas– o fator mais importante na origem dos acidentes por más condições ergonômicas



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